sexta-feira, 4 de março de 2016

(sic)

Detesto interrupções quando leio. Barulhos, conversas, televisão etc. Há pessoas que conseguem se concentrar na leitura mesmo sob condições adversas. Eu não.

Mas há um outro tipo de interrupção, esta causada pelo autor do livro, que me irrita mais ainda.

Colado no caderno, em outra parte, um papel de carta traz escrito com tinta roxa: "Minha creança (sic) querida: [...] Amo-te apaixonadamente!". Segue-se uma espécie de diálogo, lá pela página 6 do diário: "Bem vez (sic) pois que o nosso amor é um paradoxo, um fenômeno incrível. Tu me amas! Tu, o boy-chic da moderna literatura [...]." (*)

A expressão sic, palavra que vem do latim e significa "assim", é muito utilizada em livros biográficos ou históricos, para indicar um erro em uma citação ou texto reproduzido no livro. Esse "erro" pode ser de ortografia ou concordância, ou mesmo para indicar que a palavra mudou sua grafia ao longo do tempo. Pelo menos essas são as formas mais comuns de utilização.

Três singelas letrinhas entre parênteses que interrompem a leitura (como acontece, aliás, com todas as observações feitas entre parênteses).

Se a história relatada no trecho reproduzido acima se passa nos anos 1920, é totalmente desnecessário indicar que a grafia da palavra indicada com sic era diferente quando foi proferida. O leitor sabe o contexto e a época em que se passa a história, e se estiver interessado na etimologia ou história da dita palavra que vá procurar no google ou em um dicionário.

Já a utilização desse recurso para correção de erros, além de inútil, é desrespeitosa para com o autor original.

Senão, vejamos. Se quem proferiu a frase era alguém de baixa cultura, assinalar seu erro é um deboche. Coisa muito feia. Se, por outro lado, era alguém de alta cultura, parece meio bobo o escritor no tempo presente apontar o erro, como quem diz, olha, achei um erro dele, não fui eu não quem errou!

Basta a frase estar entre aspas ou em itálico, que já sabemos que o texto foi reproduzido literalmente e os autores originais são responsáveis pelo seu conteúdo e forma. Não é preciso gastar o latim. Isso é quase tão inútil quanto esse post.


(*) O texto acima foi extraído da biografia e Oswald de Andrade, de Maria Augusta da Fonseca. Livro delicioso, por sinal, apesar da profusão de sics.

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