domingo, 14 de fevereiro de 2016

A arte de transferir problemas

A ideia desse post vem do meu amigo Ademir. Aliás, é dele também outra historinha transcrita em um dos posts mais lidos deste sítio (Ademir e as maritacas).

Com a palavra, Ademir:

"O fato se passou há alguns anos, durante o velório do pai de uma conhecida minha. O velório transcorria-se em Santos dentro da normalidade.Formou-se um grupo de pessoas aleatoriamente, e eu não conhecia praticamente ninguém; a maioria eram amigos próximos de longa data da família, pessoas idosas com idade variando por volta dos setenta e oitenta anos.
Como sempre, falavam da trajetória de vida ilibada do falecido, as virtudes enaltecidas, os defeitos esquecidos, e dos detalhes da doença que infelizmente havia lhe levado à morte.
Dentro dos diversos temas, foi levantada pelo grupo a questão referente à cerimônia de cremação que seria realizada no dia seguinte na cidade de São Paulo.
Neste momento todos os senhores presentes, exceto eu, foram gradativamente manifestando a intenção de comparecer ao evento do dia seguinte.
Em sequência, de uma forma que até parecia orquestrada, começou a tomar corpo à ideia de que algo poderia ser feito por alguém, no sentido de providenciar-se a contratação de uma Van, a fim de facilitar o transporte de todos os interessados em conjunto e baratear o custo da viagem.
A esta altura, o grupo que estava disposto de maneira geometricamente irregular, foi se posicionando de maneira rigorosamente circular e o tom da conversa foi ficando mais inquisitório. Eu, um verdadeiro estranho no ninho, estrategicamente fiquei fora do circulo a uma distancia confortável, pois não tinha uma ligação direta com o finado e muito menos com aquela turma de antiga convivência.
Percebi então, que sem muita perda de tempo, o grupo através de um consenso que me pareceu visual e preconcebido, começou a centrar em um dos elementos a responsabilidade pela investigação, cotação, contratação e logística para viabilização do meio de transporte para o dia seguinte.
O “eleito” começou a ser sabatinado impiedosamente pelos demais “amigos”, que tentavam a todo custo impor-lhe a missão quase impossível de em menos de 24 horas solucionar o problema. Venhamos e convenhamos, só se ele fosse o Tom Cruise, o Jack Bauer ou para os mais velhos, o James "Jim" Phelps (líder da equipe do seriado de TV – Missão Impossível).
Pressionado por todos os lados, o infeliz não encontrava mais argumentos e justificativas para ficar de fora, mostrava-se a certa altura impotente e desgastado. Realmente difícil situação em que ele se encontrava; fiquei com muita pena, pois por muitas vezes já vi este filme antes, e o que é pior, sendo o ator principal deste drama.
Por fim, próximo a ser nocauteado, como se buscasse o “corner” no intervalo da luta, escutei a vítima balbuciar algumas palavras pedindo um tempo e tomou a direção dos sanitários. Enquanto ele se afastava, o grupo voltou a concentrar-se no planejamento da estratégia final para o nocaute do moribundo. Porém o destino que parecia traçado, de repente tomou novo rumo; pois quando o sujeito se viu longe dos olhares da turma, mudou de direção, caminhou furtivamente para um automóvel e seguiu destino ignorado.
Depois de algum tempo, enquanto fiquei por lá, estranhando a demora, o grupo se desfez, seguindo um para cada lado, no objetivo de localizar o fugitivo e reiniciar a tortura. Mas a esta altura..."

Veja você, o cara chegou lá chateado com a morte do amigo e de repente se viu com um problema em mãos e responsável direto pela sua solução! Problema esse que ele não tinha havia minutos antes. É incrível a capacidade de certas pessoas de fazer isso, não só dão as ideias como já atribuem as responsabilidades. Parece que não se lhes exige qualquer esforço para isso. Líderes natos! Com certeza eles já tinham no bolso várias desculpas para dar caso alguém perguntasse "por que você mesmo não o faz?"
Entre os muitos pontos em comum na nossa longa amizade, somos ambos, Ademir e eu, inábeis na arte de transferir problemas. Somos, portanto, alvos fáceis e prioritários dos que têm essa habilidade, de forma mais ou menos explícita do que a relatada na historinha acima.
A liderança dentro de uma grande empresa pressupõe inúmeras qualidades, mas acho que um dos principais requisitos dos "grandes líderes" é exatamente essa habilidade de tomar a frente de uma situação e definir quem fará o quê, sendo que ele, o grande líder, ficará com essa parte estratégica na resolução do problema que é definir quem o fará realmente.
E mais, caso a solução proposta pelo incauto exija uma tomada de decisão difícil por parte do "líder", pode estar certo de que ele vai pedir mais informações e alternativas. E adivinhe quem o fará?
E você, em qual posição você situa normalmente?
Encerro esse post com uma tirinha que não tem nada a ver com a historinha acima, mas tem tudo a ver com transferência de problemas. Aliás, é velha como a arte de transferir problemas.


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