quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Quixeramobiiiiim

1978. Meu amigo Dimas e eu estávamos debruçados sobre uma prancheta de desenho, fazendo um trabalho qualquer da faculdade que nem me lembro. Digo, da faculdade em me lembro, o que eu não me lembro é do trabalho.

Enfim, como quase todo trabalho de faculdade, esse havia sido elaborado por um professor sádico que não sabia que a relatividade do tempo só se observa muito próximo à velocidade da luz e que nós, seres humanos e com velocidades humanas, só dispomos de míseros 60 minutos por hora e 24 horas em um dia, invariável e absolutamente. Ainda, como todo trabalho de faculdade, deixamos para última hora, claro.

Estávamos, como dizia, ali debruçados tentando não pensar no tempo que faltava para acabar a noite e o prazo de entrega: primeira aula do dia seguinte. De consolo, o rádio sintonizado na Eldorado.

Pois justo nesse dia, Chico Buarque lançava um de seus melhores álbuns e a sempre boa Rádio Eldorado brindou seus ouvintes com todas as faixas pingadas ao longo da noite.

Como um conta-gota musical, lá vinham Cálice, Trocando em Miúdos, Feijoada Completa, O Meu Amor, Homenagem ao Malandro, Pedaço de Mim, Pivete, Apesar de Você, Tanto Mar. Só coisa boa, é ou não é?

Numa bela hora, eles colocam no ar a música Até o Fim, totalmente inédita até então:

Quando eu nasci veio um anjo safado
O chato dum querubiiiiim
Que decretou que eu tava predestinado
A ser errado assiiiiim
Já de saída minha estrada entortou,
Mas vou até o fim

Ficamos os dois paralisados já logo no querubiiiiim. E começamos a rir.

‘Inda garoto deixei de ir à escola
Caçaram meu boletiiiiim
Não sou ladrão, eu não sou bom de bola
Nem posso ouvir clariiiiim
Um bom futuro é o que jamais me esperou
Mas vou até o fim

E rimos muito. A cada novo verso, mais risadas.

Eu bem que tenho ensaiado um progresso
Virei cantor de festiiiiim
Mamãe contou que eu faço um bruto sucesso
Em Quixeramobiiiiim
Não sei como o maracatu começou
Mas vou até o fim

No Quixeramobiiiiim foi muito difícil não urinar nas calças…

Por conta de umas questões paralelas
Quebraram meu bandoliiiiim
Não querem mais ouvir as minhas mazelas
E a minha voz chinfriiiiim
Criei barriga, a minha mula empacou
Mas vou até o fim

Daí pra frente quase não prestávamos mais atenção na letra, só ficávamos esperando o próximo iiiiim.

Não tem cigarro acabou minha renda
Deu praga no meu capiiiiim
Minha mulher fugiu com o dono da venda
O que será de miiiiim?
Eu já nem lembro pr’onde mesmo que vou
Mas vou até o fim

Delírio!

Como já disse, era um anjo safado
O chato dum Querubiiiiim
Que decretou que eu estava predestinado
A ser todo ruiiiim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim

Até hoje quando escuto essa música eu me lembro desse fato, preciso checar se o Dimas também se lembra. Provavelmente foi graças a ela que tivemos ânimo para continuar nosso trabalho e ir até o fiiiiim.

 

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