domingo, 11 de setembro de 2011

E virou história

Graças à generosa biblioteca do meu saudoso avô Zuza, pude ter acesso a uma grande literatura sobre a 2ª Guerra Mundial, suas origens, a política mundial, as grandes batalhas, os dramas individuais e coletivos. Até hoje me impressiona como esse conflito assumiu proporções tais que mudaram totalmente a cara do mundo.

Para mim, nascido 12 anos após seu término, a 2ª Guerra Mundial sempre foi apenas um fato histórico. Mas gostava de imaginar como meu avô teria vivido esse período, acompanhando o avanço e recuo das tropas pelos jornais, vivendo durante quatro ou cinco anos a angústia de não saber como terminaria a história.

Fiz esse preâmbulo por causa de uma sensação engraçada que tenho vivido nos últimos dias por conta do aniversário de 10 anos do atentado contra as torres gêmeas em Nova York, em 11 de setembro de 2001.

Naquele dia eu estava a 2.000 km de casa, numa viagem a serviço. Quando começaram a chegar as primeiras notícias, a coisa soava como impossível. Os recursos de vídeo na internet de então eram limitados e as imagens que se conseguiam ver eram muito toscas. Se fosse hoje, pululariam vídeos de alta resolução no youtube alguns segundos após o fato ou, quem sabe, talvez até antes, postado de dentro de um dos aviões. Nas noites seguintes, as televisões ficaram ligadas nos noticiários onde aos poucos digeríamos os fatos. No hotel onde eu estava hospedado, por uma dessas coincidências, no dia seguinte ao atentado o contrato de TV a cabo deles perdeu a imagem da CNN, o que me fez pensar em inúmeas teorias conspiratórias. A única certeza é de que o mundo não seria mais exatamente o mesmo da li para frente.

Mas 10 anos é muito tempo. Já sabemos mais ou menos no que deu. Não me angustia mais. Embora ainda ache o fato impressionante e significativo, a sensação que se tem (eu tenho, melhor dizendo) é a de que estamos assistindo a um documentário. Como se fosse sobre a 2ª Guerra ou a Queda da Bastilha ou a Revolução Russa. A inauguração do monumento às vítimas parece aqueles encontros anuais dos pracinhas da FEB. Embora as consequências ainda estejam por aí, pricipalmente se você for afegão ou iraquiano, os atentados ficaram distantes, quase tão inacreditáveis quanto o Holocausto. Só falta alguém começar a dizer que eles não ocorreram realmente.

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3 comentários:

mara* disse...

Minha avó materna viveu em meio a plantações de cartochkas (batatas). Rodeadas por florestas onde colhia cogumelos. Na Polônia, quando ainda era dominada pela Rússia czarista. Com a primeira grande guerra, veio a fome. Ainda jovenzinha, com o irmão e a cunhada, fugiram. O destino era fazer a vida na América. Erraram de América e desembarcaram no Rio Grande do Sul. Apenas com a roupa do corpo, uma nova fuga. Do trabalho escravo em uma fazenda. Para trás, abandonada, ficou uma história retratada em fotos amareladas. Mais uma que se perdeu. Dos campos e florestas na Polônia apenas lembranças.

Meu pai viveu a segunda guerra, fugiu de um campo de concentração, ele não era judeu, era um soldado russo capturado pelos nazistas. Desembarcou sem lenço e documento no Porto de Santos. Para preservar a família que deixou na Rússia, da perseguição de Stalin, preferiu apagar tudo e inventar um novo nome.

11 de setembro não é, como os americanos dizem, "o maior atentado terrorista da História". Que eu saiba, o maior atentado terrorista da História ocorreu em Hiroshima e Nagasaki.

Beijos e boa semana.

Edison Junior disse...

Tem toda razão quanto à proporção dos ataques, os de Hiroshima e Nagasaki foram muito piores, e tiveram como única e tênue desculpa o fato dos países estarem em guerra. Certamente os EUA desfilaram inúmeros argumentos para justificar seus atos (pelos meios convencionais o Japão jamais se renderia e haveria muito mais mortes de americanos, por exemplo), porém a motivação maior teria sido mesmo a demonstração do poder americano para os russos, eventuais futuros adversários pela hegemonia mundial.

P.S. Muito interessante a história da sua família. Daria um ótimo livro na bibloteca do meu avô.

mara* disse...

Seria uma honra.

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