sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Chico Buarque


Após o trauma do suicídio do Presidente Getúlio Vargas em 1954 e um período de grande instabilidade política, o Brasil começou a viver uma espécie de renascimento. O Presidente Juscelino promoveu uma grande mudança no país, a começar pela capital do país, que ele encasquetou de mudar do Rio de Janeiro para o planalto central. Depois, com seu plano de desenvolver o Brasil “cinquenta anos em cinco”, criou condições para que o setor industrial brasileiro construísse a base do que é hoje. Esse desenvolvimentismo todo teve seu preço a pagar, mas isso é outra história. No mundo da música, Vinícius de Moraes, Tom Jobim e João Gilberto davam forma ao que ficou conhecido mundialmente como Bossa Nova.

Nesse ambiente, o menino Chico Buarque de Hollanda viveu sua adolescência. Indeciso quanto a ser escritor ou músico, optou pela último ao ouvir João Gilberto cantando de um jeito que ele poderia cantar também. Aliás, até mesmo o imitava nas rodas de músicas com os amigos. Entrou para a faculdade de arquitetura 1963, de onde restou apenas o episódio relatado abaixo de forma hilária por ele:


Mas o negócio do Chico era mesmo a música. A que ele considera sua primeira composição pra valer foi Tem Mais Samba, de 1964.


Ainda sem pensar muito a sério em se profissionalizar como músico, participou de alguns programas de televisão e inscreveu uma música, Sonho de Um Carnaval no I Festival da Música Popular Brasileira da TV Excelsior, de São Paulo. Quem ganhou foi Arrastão, de Edu Lobo, defendida por Elis Regina. Veio depois sua composição Pedro Pedreiro, que já mostrava algo diferente chegando à música brasileira.


Increveu sua música A Banda, composta em um único dia, no II Festival da Música Popular Brasileira na TV Record. Na verdade, ele queria inscrever Morena Dos Olhos D’água, mas achou que A Banda pegaria mais fácil no gosto do público. Foi uma disputa acirradíssima, mas finalmente ele ganhou da Disparada, de Geraldo Vandré. O grande sucesso obtido pelo artista converteu-se no seu primeiro LP.


A Ditadura começava a apertar o cerco em quem ela considerava subversores da ordem e nessa altura o Chico já estava a dar trabalho a ela. Compôs uma música em homenagem ao Marquês de Tamandaré, heroi da Marinha brasileira que emprestava sua efingíe para a nota de CR$ 1 (um cruzeiro). A música foi proibida, pois aludia à recente desvalorização da moeda e a Marinha ofendeu-se com a homenagem.



Em paralelo às composições, Chico escreveu a peça teatral Roda-Viva. O argumento da peça nada tinha de político, tratava da vida de um artista que era engolido pelo esquema da televisão. Porém, numa montagem em São Paulo, o teatro foi invadido por um grupo de militantes da direita que quebrou a casa e agrediu os atores. A música Roda-Viva foi inscrita no III Festival da Música Popular Brasileira na TV Record. Ficou em terceiro lugar, atrás de Ponteio, de Edu Lobo, e Domingo no Parque, de Gilberto Gil.


Mas Chico nunca deixou de lado as músicas românticas, como Carolina, por exemplo:

Alertado por amigos que a coisa ia ficar ainda pior para ele, auto-exilou-se na Itália por um ano. Não sem antes deixar mais uma pérola cutucando as autoridadess de plantão. Inexplicavelmente, a música Apesar de Você acabou passando pela censura, mas foi posteriormente proibida e os discos recolhidos.


Em 1971, Chico lançou o quinto e um de seus melhores LPs, que tinha as músicas Desalento, Minha História, Samba de Orly, Valsinha, Deus Lhe Pague e outros clássicos da MPB, como Construção, em que ele brinca com as palavras de uma forma genial.


A mulher sempre foi bem compreendida pelo compositor (embora ele negue isso). São exemplos disso Com Açúcar, com Afeto, de seu primeiro disco, e Atrás da Porta, maravilhosamente gravada por Elis Regina.


Chico voltou às atividades teatrais e escreveu com Ruy Guerra a peça Calabar, que foi totalmente proibida pela censura. Mesmo o LP com as músicas da peça teve que sofrer várias adaptações para passar. A palavra Calabar foi proibida. Em vez do disco se chamar Chico Canta Calabar, saiu só Chico Canta. As fotos foram substituídas por um fundo branco. Porém, na música Cala a Boca, Bárbara, ele não passou vontade: repete várias vezes o refrão “CALA a boca, BARbara!”

Aliás, o jogo de palavras sempre foi o forte de Chico, como na música Cálice (cale-se). Veja essa apresentação no show Phono 73, em que Chico e Gil não cantam a letra proibida da música, apenas a cantarolam. Mesmo assim os microfones são cortados.



Os tempos eram realmente bicudos. Todo mundo era censurado. Chico, porém, sofreu uma perseguição impiedosa da censura, a ponto de lhe proibirem as músicas mais inocentes. Criou então um compositor fictício chamado Julinho da Adelaide, sob cujo pseudônimo compôs a obra prima Acorda Amor, e a gravou num LP somente com músicas de outros autores. Passou pela censura sem problemas. Se você quiser saber mais sobre esse personagem clique aqui – tem um longa entrevista com Chico sobre essa época.


Em 1975 a censura começou a abrandar, mas não muito. E proibiu a letra da música que Chico fez alusiva à revolução socialista que houve em Portugal (Revolução dos Cravos). Seguem as duas versão da música Tanto Mar, a original que foi proibida e a versão que passou, vídeo esse com explicações do próprio autor.



Segundo o próprio Chico, nem tudo o que acham que ele colocou nas suas letras tinha intenção política. Para ele, da mesma forma que a censura procurava pelo em ovo, o outro lado também se esforçava por achar o que não existia. Mas ainda havia muita gente exilada, como o teatrólogo Augusto Boal, para quem Chico e Francis Hime compuseram a música Meu Caro Amigo, com a letra em forma de carta. A coisa ainda tava preta.


Voltando ao universo feminino de Chico (o cara é um gênio nesse quesito!), Mulheres de Atenas é uma obra prima.


Olhos nos Olhos é outra.


Compositor maduro, sem mais nada a provar para ninguém nem satisfações para dar à censura, Chico voltou ao teatro e escreveu a Ópera do Malandro, baseada na Ópera dos Três Vinténs, de Bertold Brecht. Dessa peça vem a música Folhetim.


Da parceria com Francis Hime, saíram mais duas músicas memoráveis, Pivete e Trocando em Miúdos.


Em 1981, Chico lançou o LP Almanaque. Uma de minhas favoritas é Vitrines. “... passas sem ver teu vigia catando a poesia que entornas no chão...”.


Outra parceria que deu certo foi com Edu Lobo, com o qual compôs Moto Contínuo.


E Beatriz, que fez parte da peça O Grande Circo Místico, aqui na voz de Mônica Salmaso.


Chico estava tentando acertar o refrão de um samba chamado Getúlio, que faria parte de uma peça de Dias Gomes, quando a partir de umas linha melódicas paralelas começou a se desenhar um novo samba. Inicialmente pensou em dividi-lo com outros compositores, cada um fazendo um pedaço, mas afinal acabou ficando somente com Francis Hime. Vai Passar virou meio que um hino do final do período do governo militar.


Para o filme A Ópera do Malandro, Chico compôs A Volta do Malandro, utilizando pela primeira vez efeitos eletrônicos em suas músicas.


A primeira parceria de Chico com Tom Jobim foi em Retrato em Branco e Preto, logo no início de sua carreira. Nos anos 80, A TV Globo encomendou a Tom uma música para o seriado Anos Dourados. A parceria seria com Chico, mas este se demorou muito para fazer a letra. O seriado estreou com a música sem letra mesmo. Chico garantiu que não foi ele quem atrasou, mas o seriado que adiantou. Falando sério, valeu a pena esperar pela letra de Anos Dourados.


Outra música cuja letra mostra toda a sensibilidade de Chico é Todo o Sentimento, dele com o pianista Cristóvão Bastos.


Nos anos 90 a produção musical de Chico diminuiu um pouco, mas ainda traria boas surpresas, como em Futuros Amantes.


Ou essa homenagem à Mangueira, chamada Chão de Esmeraldas.


Finalmente, na semana passada comprei o novo CD do Chico, lançado pela Biscoito Fino. Ainda estou curtindo as músicas, mas já adianto que tem coisas lindas, como Sinhá, que ele canta com seu parceiro na composição, João Bosco.


Quanto à dúvida que Chico Buarque tinha quando jovem entre ser escritor ou músico, ele acabou ficando com as duas atividades. Além das peças de teatro mencionadas ao longo desses posts, lançou Fazenda Modelo, Estorvo, Benjamim, Leite Derramado e Budapeste, este último meu preferido.

Agradeço a companhia dos que me acompanharam nessa longa viagem Buarquiana. Espero que tenham gostado.


Referências bibliográficas:
Wagner Homem, Histórias de Canções - Chico Buarque – Texto Editores Ltda – 2009
Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, A Canção no Tempo – Editora 34 – 5ª Ed. – 1998
Mais: Wikipedia, YouTube, capas de CD, memórias pessoais etc.


Esse post foi publicado pela primeira vez no Musicólatras.

3 comentários:

mara* disse...

A turma alienada da 'Jovem Guarda' atraia as atenções juvenis, a Bossa Nova foi para o exterior, despontava o tropicalismo, os 'Beatles' eram o ponto alto no mundo. Era o início da onda pop. Com vinte e poucos anos, Chico desbancou todos os modismos e movimentos.

Chico tem o verbo na ponta da língua e sabe como ninguém embalar a alma feminina. Gosto dele como poeta, denunciando, causticamente, a hipocrisia social.

Não levo em consideração o seu livro 'Fazenda Modelo', uma história extremamente semelhante à obra ‘Revolução dos Bichos’, de George Orwell. Assim como não gosto da música 'A Banda', também não aprecio 'Alegria, Alegria' de Caetano e 'Domingo no Parque' de Gil.

Bom final de semana. Beijo.

Marília disse...

Ótima viagem essa.

Anônimo disse...

Adorei a viagem e lanço um desafio:

Que tal uma lista com as dez musicas preferidas, no mesmo estilo dos filmaços.

Ademir

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