sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

1822

Acabo de ler o livro 1822, de Laurentino Gomes. Assim como 1808, do mesmo autor, 1822 me fez sentir um pouco (muito) ignorante. Fiquei realmente impressionado como a gente desconhece a história do Brasil. E olha que eu gosto muito de ler a respeito.

A menos que se disponha a ler uma extensa bibliografia, normalmente a gente fica com a versão da história simplificada ensinada nas escolas ou alguma versão ufanista oficial ou, ainda, à generalização fácil e autoavacalhante que se faz de nossos personagens históricos. Em outras palavras, ficamos entre a imagem do filme Independência ou Morte (1972), com Tarcísio Meira e Glória Menezes, filmado no auge do regime militar, e a outra extremamente caricata de Carlota Joaquina (1995), com Marieta Severo e Marco Nanini. Nada contra os filmes citados, assisti-os e recomendo-os. Digo apenas que carecemos de filmes históricos que sigam um caminho intermediário, só para variar. Um bom exemplo de exceção que confirma a regra é o filme Hans Staden (já viram?), é muito bom, mas isso é outra história.

Voltando ao 1822, revelo em público, e sem vergonha nenhuma da minha ignorância, duas coisas que aprendi em sua leitura:

1) Sempre achei estranho a Bahia comemorar a data de 2 de julho como a da 2dejulhoindependência do Brasil, muito mais que 7 de setembro, à qual eles nem ligam. Aeroporto 2 de julhoEntendi agora o clima de revolta da população quando mudaram o nome do aeroporto de 2 de julho para Luiz Eduardo Magalhães, numa singela homenagem ao filho do homem (ACM). Os baianos chegam a dizer que 2 de julho é o dia da independência da Bahia!

Nosso processo de independência não foi apenas um brado irado de um filho mimado após uma diarréia às margens plácidas do Ipiranga. Foi um processo doloroso que começou bem antes disso e resultou em uma guerra que durou até 2 de julho de 1823, quando os heróicos baianos (ajudados é verdade por tropas enviadas do Rio por D.Pedro mais um punhado de mercenários estrangeiros) finalmente expulsaram as tropas portuguesas da Bahia, de onde Portugal esperava dividir o Brasil em duas partes, um norte-nordeste português deixando o sul independente, para depois tentar recuperar o pedaço perdido. Nossa história poderia ter sido bem diferente se os portugueses houvessem conseguido seu intento.

D.Pedro I2) Fosse D. Pedro americano ou inglês e seria reverenciado em filmes e livros como o herói que foi, não pelo referido brado, mas pela barra que segurou naquele tempo, enfrentando a Coroa Portuguesa (nem tanto seu pai D. João, mas as cortes e comerciantes portugueses que perderam muito com a abertura dos portos brasileiros para os ingleses). Pode-se discutir a influência que tinha sobre ele José Bonifácio e a maçonaria, mas D. Pedro tinha ideias próprias, era liberal e abolicionista. Além disso, a própria maçonaria se divida a respeito de como deveria ser feita a independência.

Com essa mesma mentalidade, D. Pedro voltou a Portugal para destituir seu irmão Miguel do trono português, que o havia tomado ilegitimamante em conlúio com sua mãe, D. Carlota, ameaçando a revolução liberal que ocorrera em Portugal. Pedro desembarcou quase sem recursos, resistiu bravamente a um cerco na cidade do Porto e, com o auxílio dos ingleses, retomou o trono. Governou por pouco tempo, vindo a morrer logo depois. Mas impôs uma constituição liberal que resistiu até o final da monarquia em 1910.

Mulherengo, D. Pedro teve muitas aventuras, foi amante declarado de Domitila, a Marquesa de Santos, destratava e humilhava Leopoldina e teve enorme prole fora do casamento, incluindo um filho com uma freira. Enfim, um homem pra lá de imperfeito. Mas um heroi em dois países, coisa para muito poucos.

Heróis FEBNota: outro grande momento de nossa história tantas vezes avacalhado é a participação brasileira na 2ª Guerra Mundial. Único país latino americano a enviar tropas para lutar na Europa, nossos soldados lutaram tão bravamente que o 1º Grupo de Aviação de Caça foi uma das três únicas unidades não-americanas a receber a Presidential Unit Citation, comenda dada pelo Presidente dos EUA a unidades que se destacaram em gestos de heroísmo, acima e além do dever. Descobri recentemente que estão fazendo um filme que vai resgatar esse momento. Leia mais em Contraditorium – clique aqui.

Nenhum comentário:

Related Posts with Thumbnails