terça-feira, 30 de março de 2010

Lúcio Costa

Dentre as muitas efemérides redondas que celebramos em 2010, a maior delas, pelo menos no tamanho da aniversariante, é a dos 50 anos de Brasília.
A capital no interior do país era um objetivo antigo, já presente na Constituição de 1891, em seu artigo 3º: “Fica pertendendo à União, no planalto central da República, uma zona de 14.400 quilômetros quadrados, que será opotunamente demarcada, para nela estabelecer-se a futura Capital Federal”. Que viagem!
Juscelino, que enquanto deputado era contra a instalação da nova capital no planalto central (preferia que fosse em Minas, claro), prometeu durante sua campanha presidencial que a construiria no local previsto pela primeira constituição da república.
Montou-se então uma comissão e foi feito um concurso para a escolha do Plano Diretor. Alguns parâmetros básicos foram estabelecidos como o local, a população (500 mil habitantes), a construção de um lago e outras coisinhas assim.
Brasília - Concurso 01 - Lúcio Costa
A proposta vencedora foi a de Lúcio Costa (acima), de longe a que menos tempo teve investido em sua elaboração, mas cujo texto de apresentação por si só já merecia um prêmio:
Não pretendia competir e, na verdade, não concorro, – apenas me desvencilho de uma solução possível, que não foi procurada mas surgiu, por assim dizer, já pronta. Compareço, não como técnico devidamente aparelhado, pois nem sequer disponho de escritório, mas como simples maquis do urbanismo, que não pretende prosseguir no desenvolvimento da ideia apresentada senão eventualmente, na qualidade de mero consultor. E se procedo assim candidamente é porque me amparo num raciocínio igualmente simplório: se a sugestão é válida, estes dados, conquanto sumários na sua aparência, já serão suficientes, pois revelarão que, apesar da espontaneidade original, ela foi, depois, intensamente pensada e resolvida; se não o é, a exclusão se fará mais facilmente, e não terei perdido o meu tempo nem tomado o tempo de ninguém.”
Por curiosidade, seguem alguns dos outros projetos que concorreram:

Brasília - Concurso 02 - Jorge Wilheim 
Jorge Wilheim

Brasília - Concurso 03 - Pedro Paulo de Melo Saraiva e Júlio Neves 
Pedro Paulo de Melo Saraiva e Júlio Neves

Brasília - Concurso 07 - José Geraldo da Cunha camargo 
José Geraldo da Cunha Camargo

Brasília - Concurso 08 - Irmãos Camargo 
Irmãos Camargo

E, de quebra, um esboço do Congresso, feito por Niemeyer:
Brasília - Congresso - Niemeyer


Fonte
: Revista AU . Ano 25, nº 192 . Março 2010

sexta-feira, 26 de março de 2010

Musicólatras

Convidado por um amigo de blogosfera, o Daniel, passei a integrar o recém-criado blog Musicólatras Anônimos, feito por pessoas que gostam de música e, principalmente, que gostam de falar sobre música. Se você também gosta de música como nós, dê uma passadinha por lá e faça-nos uma visita. Tem música pra tudo quanto é gosto.

Relendo a frase acima, notei que repeti muitas vezes a palavra “música”. Pensei em cortar, mas acho que assim combina mais com o blog. Som na caixa!

quinta-feira, 25 de março de 2010

O julgamento

O povo aguarda atento e ansioso o desenrolar do julgamento dos réus previamente condenados pela imprensa e pela opinião pública.

Fila 3

 Fila 2

Se esse pessoal que passa o dia todo em frente ao fórum pudesse, vez por outra, fazer uma concentração parecida em frente aos órgãos legislativos municipais, estaduais e federais quando da votação de leis importantes para a nação – coisa que eu não faço -, certamente este seria um país melhor.

terça-feira, 23 de março de 2010

Galos, noites e quintais

de Belchior

Quando eu não tinha o olhar lacrimoso
Que hoje eu trago e tenho
Quando adoçava o meu pranto e o meu sono
No bagaço de cana de engenho

Quando eu ganhava esse mundo de meu Deus
Fazendo eu mesmo o meu caminho
Por entre as fileiras do milho verde que ondeiam
Com saudades do verde marinho

Eu era alegre como um rio
Um bicho, um bando de pardais
Como um galo, quando havia
Quando havia galos, noites e quintais

Mas veio o tempo negro e a força fez
Comigo o mal que a força sempre faz
Não sou feliz, mas não sou mudo
Hoje eu canto muito mais

… e cantando eu sou mais feliz.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Dia Mundial da Égua

Cavalo_a_rir 
Sobre o Dia Mundial da Água, que ocorre a 22 de março, leia meu post do ano passado.

domingo, 21 de março de 2010

O lado não bucólico do trenzinho

A modernidade em São Paulo está no emaranhado de tempos das relações sociais. Está no arrastar de pés que por esse espaço dissemina as contradições do moderno. Está nos desencontros.

O mundo moderno chegou lenta e marginalmente a São Paulo já no século XVIII. Por isso, não chegou para todos nem fez sentido para a maioria da população. Pouquíssimos perceberam as mudanças que chegavam.

Trem ParanapiacabaEssa lentidão foi abalada na década de 60 do século XIX, quando a ferrovia, saindo do porto de Santos, deslizou pela íngreme Serra do Mar e inundou o planalto com seu tempo próprio, a mentalidade da pressa, do chegar logo, a de estar no mesmo dia em dois lugares antes separados por dias de cavalgada. O homem deixava de ser o condutor da tropa para ser conduzido como tropa.

Extrato do texto “A gestação do ser dividido: a ferrovia e a modernidade em São Paulo”, de José de Souza Martins, em A Aparição do Demônio na Fábrica, publicado em 2008 pela Editora 34 Ltda.

sexta-feira, 19 de março de 2010

quarta-feira, 17 de março de 2010

Sobre nomes

Um amigo meu me contou que a mãe dele sempre quis ter um filho que se chamasse Paulo Sérgio, um nome que ela adorava. Quando ele nasceu, ela pode  realizar seu sonho. Seu pai, português, estava a caminho do cartório para registrá-lo, quando encontrou-se com uma parente, à qual contou-lhe como ia se chamar o filho. A dita parente indignada protestou:

- Mas como? Paulo Sérgio? Mas isso lá é nome que um português dê a seu filho! Você precisa escolher um nome típico da terrinha para ele!"

E foi assim que meu amigo ganhou seu nome de Joaquim.

O detalhe delicioso, visto de longe, é que a mãe dele só soube da mudança após o registro. Ficou doida e quase matou o pai. Mas, felizmente, o gajo tinha a sorte muito maior que o juízo e teve um segundo filho, o qual se chama, claro, Paulo Sérgio.

Bom, Joaquim e Paulo Sérgio até que têm sorte, pois seus nomes são bem “normaizinhos”. Mas o que dizer das pessoas abaixo?

Latoia
Parecida
Dirso [era para ser Edson]
Simony [Símoni]
Nefertiti
Glaudestone
Uagna
Orismar
Erlândia
Abiqueila
Giucemar
Deovair
Lidenil
Weslya
Chadia
Weydei [pronuncia-se uêidi]
Magnelson [a mãe desse deve ter tido muita azia na gravidez]
Bátma
Deusilene e Dulcilene [gêmeas]
Andryel
Raílda
Geone
Flordenisce
Jodson
Fibrônio
Regilânia
Videlwilson
Clícia
Amíssella
Ecleidira
Essiomar
Andréfson
Urislei
Mazonice
Eroíto [não, não é japonês]

Esses nomes foram pescados no dia a dia em crachás, lojas, no trabalho, na televisão e por aí afora. Boa parte deles por minha mãe, a quem agradeço de coração.

terça-feira, 16 de março de 2010

Gárgulas modernas

2010-03-13 Gárgulas modernas

segunda-feira, 15 de março de 2010

Bunda commodity

bunda_arvoreOuvi hoje numa entrevista da CBN, um "especialista" em meio ambiente falando sobre o aumento do desmatamento da Amazônia:

"(...) Estamos num momento de boom da commodity!"

Tá explicada a foto ao lado!

domingo, 14 de março de 2010

+ Design

1) Benjamim simpático, mas não sei se os bombeiros aprovariam.

Design Benjamim

2) Já esse é muito prático

Design Tomada com suporte

3) Uma iluminação bacaninha para a copa

Design Lustre-xícara

4) Que combina com essas práticas tabuínhas de cortar legumes

Design Tábua prática 1

Design Tábua prática 2

 

 

 

 

 

 

Design Tábua prática 3

5) E que, com essa bandeja de descascar batatas, completa uma boa lista de artigos para a mulher moderna (brincadeirinha…)

Design Mesa de cortar batata

6) Gostei também desse cortador de pizza

Design Cortador de pizza

7) E dessa jarrinha de leite

Design Jarra de leite

8) Para o banheiro, um chuveiro fashion (imagina a bacia dessa linha de produtos como deve ser)

Design Chuveiro fashion

9) Na sala um sofá bem diferente, mas que não deve ser muito bom para dormir

Design Sofá

10) Para dormir é melhor esse sofá-beliche

Design Sofá-beliche

11) Quadrinhos maneiros para colocar nesses apartamentos cheios de pilares “aparentes”

Design Quadros de quina

12) Não sei se é uma estante muito prática, mas que é bem bolada é.

Design Estante de encaixar

13) Um fone de ouvido interessante

Design Fone-zíper 1Design Fone-zíper 2 

 

 14) E, por falar em zíper, uma ideia bem diferente para um laguinho

Design Lago-zíper

sábado, 13 de março de 2010

São Paulo Indy 300

Achei muito legal que São Paulo receba uma corrida de Fórmula Indy. Não acompanhei os bastidores, nem as disucussões políticas e econômicas envolvidas no empreendimento. Por princípio sou sempre a favor a eventos como esse. Trazem o nome da cidade para a mídia mundial, ainda que muitos nem saibam que São Paulo é no Brazil.

São Paulo Indy 300O circuito será na Marginal Tietê e entrará pelo Sambódromo. Uma ideia legal patrocinada pela prefeitura e pela Band, emissora que há tempos transmite a Fórmula Indy. Em tempo, a organização da prova em si é da própria Indy, não tem nada a ver com a prefeitura ou com a Band.

Comecei a acompanhar agora só agora, a partir da transmissão dos treinos. Em que pese o esforço dos narradores e comentaristas da Band em minimizar os “probleminhas” da pista, há um problemão de estabilidade dos carros na reta que passa por dentro do Sambódromo. Alguns carros estão perdendo a direção no meio da reta. No momento em que escrevo, a corredora brasileira Bia Figueiredo, estreante da Indy, acaba de bater seu carro nesse mesmo local.

O piso de concreto aparenta estar muito liso e dá a impressão que os carros estão sobre uma pista de gelo. Não sei não. Está mais adequado a uma partida de curling.

Atualização às 15:30: o treino de classificação foi adiado para amanhã, dia da corrida – hoje à noite serão feitos trabalhos para melhoria nas condições da pista. Ainda bem, os carros estavam sambando no Sambódromo.

“Sabadão”

Odeio essa expressão!

quinta-feira, 11 de março de 2010

Entrevista de emprego

Edison - Nervosismo na entrevista - Nuca

terça-feira, 9 de março de 2010

Microfone de campo

Moro perto de um campo de futebol onde aos sábados e domingos são disputados torneios de várzea. Às vezes incomoda um pouco, principalmente quando soltam fogos barulhentos para comemorar a entrada de algum time, mas é exceção. Chato mesmo só quando rola um pagode depois das partidas.

Mas tem o lado engraçado: os gritos que se ouvem durante os jogos. Já joguei futebol e provavelmente até já gritei igual, mas quando se presta atenção, a coisa fica muito mais interessante. Não sei se existe um estudo sociológico a respeito, mas deixo aqui minha contribuição em forma de lista das expressões mais utilizadas em ordem alfabética e procurando reproduzir o som percebido:

Aaah, juiz, caraio!
Beeem!
Capricha, caraio!
Dá aqui, ó!
Do outro lado, caraio!
É brincadeira!
Ei! Ei!
Falta aí, juizão, caraio!
Filho da puuuuta! 
Goool!
Num vai dá cartão, professor?
Ô bandeirinha viado!
Olha eu aqui sozinho, caraio!
Opa! Opa!
Pede pra cagá e sai! (essa é clássica)
Porra, golerão, caraio! 
Putaquipariu, caraio!
Sai da área! Sai da área, caraio!
Saiu! Saiu! Saiu!
Tá com o braço engessado, ô bandeira?
Tá dormindo, ô filhadaputa?
Tá empurrando!
Toca! Toca, caraio!
Vai tomá no c..., caraio!
Valeu!
Vamo jogá, caraio!
Vem cá! Vem cá! Vem cá! Vem cá!

Você deve ter notado que não coloquei muitas expressões que denotam carinho ou admiração, mas isto é porque elas são utilizadas raramente, e só quando sai um gol.

Chamo a atenção também para a prevalência do vocábulo “caraio”, que vem quase sempre como complemento de alguma outra expressão. Há casos em que ele é utilizado isoladamente, mas é mais difícil de se perceber o contexto.

Em tempo, quem me conhece certamente deve estar pensando que estou exagerando, mas não estou não, caraio.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Zé no Jô

Edison - Zé no Jô

Essa tirinha é uma homenagem ao meu amigo virtual José James, dono do tirinhas do Zé, que fez uma brincadeira muito legal com seus leitores.

Abração, Zé!

P.S. E obrigado por me emprestar a Dra. Lúcia.

domingo, 7 de março de 2010

Enchentes

Como eu já comentei em outro post neste sítio, enchente não é um problema novo em São Paulo. Permito-me recordar o que escrevi lá atrás:

“Os índios que por aqui viviam chamavam a terra de Piratininga, que na linguagem tupi quer dizer ‘terra do peixe seco’.
Pois é, peixe seco, porque após as chuvas e o consequente alagamento das várzeas do Tietê e seus afluentes, sobravam os peixes que não conseguiram voltar a tempo para o leito dos rios. Veja que notável: já houve peixes nesses rios!
As enchentes ocorrem porque o Tietê, que fica a menos de 100 km do mar, prefere correr lentamente para o outro lado, em direção ao interior do estado. De fato, deve ser um dos poucos rios do mundo que não correm para o mar.”

E, para não ficar apenas na memória indígena, seguem abaixo algumas fotos curiosas que recebi para confirmar que enchente não é novidade nessas terras piratiningas.

Enchentes - Av. Nove de Julho

Enchentes - Marginal Tietê - 1960

Enchentes - São Paulo 1956

Enchentes - São Paulo 1957

Enchentes - Túnel do Anhagabaú - 1963

Enchentes - Túnel do Anhagabaú - 1967

Enchentes - Vale do Anhangabaú - 1967

De positivo das últimas enchentes ficaram as tradicionais piadinhas que a gente sempre faz da própria desgraça:

  • Se a São Silvestre fosse agora, o César Cielo ia humilhar!
  • Depois do airbag, os coletes salva-vidas são os opcionais mais importantes nos carros de Sao Paulo.
  • O melhor serviço de entrega em São Paulo é o do Submarino.
  • Ninguém passa fome em São Paulo; bolinho de chuva é o que não falta.
  • Quem acha que a água do mundo está acabando não mora em São Paulo.
  • Tem carioca morrendo de inveja; agora São Paulo tem dois mares: Mar Ginal Tietê e Mar Ginal Pinheiros
  • Fagner para Kassab: “Quem dera ser um peixe para em teu límpido aquário mergulhar...”
  • O Lula está lançando a Balsa-Família pra ajudar São Paulo!
  • Pelo menos a SABESP cumpriu o prometido: água e esgoto na casa de todo mundo.
  • Depois de tanta chuva, Kassab anunciou a construção da hidroelétrica do Anhangabaú.
  • Em São Paulo não se fala mais direita e esquerda... Agora é bombordo e estibordo!
  • Em São Paulo o Kassab não pode ser caçado, só pescado!

A propósito, preparem-se para as águas de março.

sexta-feira, 5 de março de 2010

O marketing de Vespúcio

Novo MundoAmérico Vespúcio chegou à America mais ou menos na mesma época em que Cristovão Colombo. Alguns afirmam que foi ele quem chegou ao continente antes, alegando que o genovês descobriu apenas uma ilha, porém, na verdade, provavelmente até os vikings chegaram antes dos dois, mas nos livros de história geralmente consta Colombo como seu descobridor oficial.

Ocorre que, enquanto ele estava preocupado em tomar posse das terras recém-descobertas, Américo dedicou-se a escrever sobre suas viagens (Novo Mundo)  e a divulgá-las na Europa. Tão populares foram seus escritos, que o novo continente passou a ser conhecido como "América".

Américo Vespúcio era um cara bom de marketing. Menos mal, poderíamos todos agora estar morando na Colômbia.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Vigilante Rodoviário!

Vigilante 1Uêba! Chegou meu box com os DVDs da série completa do Vigilante Rodoviário!

Um ícone! Um mito!

Primeiro heroi brasileiro da televisão, Carlos era um policial rodoviário exemplar que patrulhava as estradas e perseguia bandidos, ajudado pelo pastor alemão Lobo. Essa série, que começou em 1961 e terminou 38 episódios depois, batia récordes de audiência nas noites da extinta TV Tupi.

Carlos pilotava uma Harley Davidson e um Simca Chambord no seu trabalho. Ele era representado Vigilante 2pelo ator homônimo Carlos Miranda que, depois que a série acabou, tornou-se efetivamente policial rodoviário, trabalhando também como relações públicas da corporação, onde aposentou-se como tenente-coronel.

Apesar de ter interrompido sua carreira artística quando entrou para a polícia, Carlos ainda participaria do filme Independência ou Morte (aquele com o Tarcísio Meira), além de uma ponta em Os garotos virgens de Ipanema. Mas não vou deixar que isso estrague meu prazer em rever essa saudosa série.

Para quem quiser conhecer ou lembrar, segue o capítulo 14 – O Diamante Gran Mongol - em duas partes. Notem os carros, as roupas, o rádio das motos e as paisagens, especialmente a Via Anchieta. Sim, e não tente comparar com os efeitos especiais e cenas de luta do cinema de hoje - os filmes e seriados de Hollywood daquele tempo também não eram lá essas coisas.

Veja mais informações no site do Vigilante Rodoviário.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Chuva nostálgica

Saí cedo hoje como faço todo santo dia.
Chovia. Como tem chovido quase todo dia.
Porém, alguma coisa estava meio fora de tom.
Chovia macio, tinha até um barulho bom.
Não, não era a mesma chuva que tem caído sempre.
Chovia diferente. Chovia como antigamente.


Talvez, como a chuva da roseira do Tom, boa, prazenteira, que molhava a terra, que limpava o céu, que trazia o azul…

Registro da gravação do álbum Elis & Tom, de 1974.

O último voo do flamingo

O último voo do flamingo“Os fatos só são verdadeiros depois que inventados.” (ditado de Tizangara)


“Do que me lembro jamais eu falo.
Só me dá saudade o que nunca recordo.
Do que vale ter memória
se o que mais vivi
é o que nunca se passou?”
(Sulplício)

 

Sulplício é o nome do pai do narrador do ótimo romance O último voo do flamingo, do moçambicano Mia Couto.

A história gira em torno dos misteriosos desaparecimentos de alguns soldados das forças de paz da ONU que estavam em Tizangara após a guerra civil que devastou Moçambique desde a sua independência em 1975 até o inicio dos anos 90. Os fatos narrados são o pano de fundo para a crítica de seu autor aos semeadores de guerras e aos que delas vivem.

”(…) naquele tempo não havia antigamentes.”

Mia Couto brinca com as palavras, transforma substantivos em verbos, verbos em adjetivos e nos faz meditar com a sabedoria simples do povo.

“Não me basta ter um sonho.
Eu quero ser um sonho.”
(Ana Deusqueira, prostituta)

Segundo crenças locais, os flamingos são anunciadores de esperanças. É o seu voo no final da tarde que levará o sol para o outro lado do mundo e o fará brilhar novamente no dia seguinte. O romance transmite exatamente a angústia que o autor sentiu quando soube, em visita ao sul de Moçambique, que há muito tempo os flamingos não voam mais por lá.

Related Posts with Thumbnails