sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Uma breve história do jazz – O Bebop

Como vimos, durante a Segunda Guerra Mundial muitos músicos foram convocados ou se voluntariaram para lutar na Europa e no Pacífico. Com isso, músicos muito jovens tiveram chances de tocar nas big bands antes do que seria normal. Alguns, dotados do inconformismo próprio da juventude, rebelaram-se contra o alto grau de comercialismo que havia tomado o jazz. Não tocavam mais por prazer. Eram reféns dos “arranjadores” e das gravadoras. Estavam fazendo música “pop” – oh, horror!

Como válvula de escape, e aí é inevitável remetermo-nos à discussão no post do Thiago (Músico Amador?), eles se reuniam após o “expediente” para tocar livremente, para experimentar, para mostrar suas descobertas, para aprender com os demais, enfim, para tocar onde a centelha criativa voltasse a acender dentro deles. Eram as chamadas Jam Sessions - “jam” vem de jazz after midnight, mas também pode vir de “geleia”, por causa da mistura de estilos que era ali praticada. Sempre aparecia um músico de fora para dar uma canja e a música rolava até o sol nascer.

Conta a pianista Mary Lou Williams (1910-1981) que uma noite foi acordada em sua casa às 4 da manhã por Ben Webster (1909-1973) que lhe disse: “levante-se gatinha, estamos jamming e todos os pianistas estão cansados. Hawkings tirou a camisa e continua tocando”. Coleman Hawkings (1904-1969) estava na cidade dando uma canja e se encantou com os saxofonistas locais, dentre os quais Lester Young (1909-1959) e Ben Webster.

O baterista Jo Jones (1911-1985) testemunha: “Aqueles eram tempos difíceis e, no entanto, os caras ainda achavam tempo para estudar, e quando encontravam algo novo, traziam para a sessão e mostravam aos outros músicos, qualquer que fosse o instrumento por eles tocado. Assim, eles tentavam aquele riff específico ou aquela concepção especial em uma sessão e o aperfeiçoavam (…)

Cartaz BebopO Bebop tomou corpo em Nova Iorque, entre 1940 e 1942. Era mais uma revolta dos músicos do que um movimento do público. Aliás, era um movimento contra o público. Mas, se olhado dentro da conjuntura dos levantes negros na década de 30, era também um profundo manifesto em favor da igualdade racial. Os inventores dessa música revolucionária eram todos jovens e negros, muitos deles ainda totalmente desconhecidos: Dizzy Gillespie (1917-1993) [trompete]; Charlie Bird Parker (1920-1955) [saxofone]; Thelonius Monk (1917-1982) e Bud Powell (1924-1966) [piano]; Kenny Clarke (1914-1985), Art Blakey (1919-1990) e Max Roach (1924-2007) [bateria]; Charlie Christian (1916-1942) – o único que já era conhecido do público - [guitarra]; e Milt Jackson (1923-1999) [vibrafone], só para citar alguns.

Queriam fazer uma música que “eles” – os brancos – não pudessem imitar ou roubar. As execuções tinham grande técnica e altíssimo grau de dificuldade – algumas pessoas diziam não ser possível tocar tantas notas ao mesmo tempo e tão rápido. As músicas eram tão modificadas, que o público às vezes nem percebia o tema que estava sendo tocado. Tanto é que How High the Moon era chamada de Ornithology e What is This Thing Called Love de Hothouse – devia ser um problemão para os arrecadadores de direitos autorais.

O  Bebop privilegiava os pequenos conjuntos, em que os solistas exibiam grande virtuosismo. O ritmo foi o elemento que sofreu a maior modificação dentro dessa revolução, com a proliferação do som sincopado e de figuras rítmicas complexas. O fraseado é flexível e nervoso, cheio de saltos que exigem uma técnica instrumental muito desenvolvida. Constituiam um grupo à parte, mesmo em relação aos outros músicos negros. No entanto, os ouvidos foram se acostumando e, graças principalmente ao público branco, seu talento foi reconhecido. E, pouco a pouco, claro, começaram a ser assediados pelo pessoal do marketing. Mas aí já era tarde, o jazz nunca mais seria o mesmo.

Charlie Parker e Dizzy Gillespie formaram uma dupla literalmente do barulho. Tocavam juntos frequentemente. E muito, muito rápido. Os demais músicos mal os acompanhavam, porém um completava o outro, sem ao menos se olharem. Uma dupla com uma sinergia equivalente à de Louis Armstrong e King Oliver, que vimos no capítulo dos Trumpet Kings.

Mas, Edison, para de falar e deixa os caras tocarem!

Antes de ouvi-los, porém, assistam ao vídeo a seguir com um depoimento do pianista Hank Jones (1918-2010) sobre o Bebop, em que ele interpreta a música How High the Moon de duas maneiras, a convencional e a bebop:


Aqui, um exemplo de improvisação bebop ao piano. Para nós, hoje, isso não parece muito chocante, aliás, nada chocante, pois nos acostumamos a esse som e esses saltos, quase nem os percebemos, mas deve ter sido um baque na época em que começaram a ser tocados.


Agora sim, com vocês, Musicólatras, os mestres Charlie Parker e Dizzy Gillespie (o trompete dele ainda não era torto, mas as bochechas já eram um fenômeno):


Thelonious Monk:


Charlie Parker, Coleman Hawkings e Lester Young:


Para encerrar, ouçam novamente Dizzy Gillespie, dessa vez com o seu característico trompete modificado – dizem que essa forma originou-se de um acidente com seu instrumento. Ele gostou do som resultante e manteve o formato. As bochechas continuam fenomenais.


Ah, a denominação “bebop” é uma referência onomatopaica às mudanças e saltos que as músicas davam.


Leia mais em
Uma breve história do jazz – O início
Uma breve história do jazz – O elo perdido
Uma breve história do jazz – The Trumpet Kings
Uma breve história do jazz – O Blues
Uma breve história do jazz – A Era do Swing
Uma breve história do jazz – As Divas

Nota: Essa Breve História foi publicada originalmente no blog Musicólatras.

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