quarta-feira, 7 de julho de 2010

Uma breve história do jazz – O início

Assim como os que vieram para o Brasil, os africanos que “emigraram” para os Estados Unidos na condição de escravos, entre os séculos XVII e XVIII, levaram consigo sua rica tradição da música tribal. Como não lhes era permitido tocar sua música na nova terra, passaram a cantar e tocar a “música branca” autorizada, seguindo, contudo, suas próprias regras. Isso podia, afinal, um escravo que soubesse tocar música de branco valia mais na revenda.

O primeiro instrumento foi a garganta: usavam-na enquanto trabalhavam nas plantações, cadenciando os esforços; nos spirituals, quando cantavam a sua versão da bíblia; e nos mercados, anunciando seus produtos e serviços por meio de cantos rítmicos. Com relação a esta última, George Gershwin (1898-1937) incluiu alguns dos refrões em sua obra Porgy & Bess. Tudo isso misturado recebe o nome de blues.

Emancipados, os negros passaram a utilizar seu tempo de lazer para fazer música. Como não havia dinheiro para comprar instrumentos, utilizavam o que estava à mão: lixo, objetos largados pelas ruas, pentes de osso, potes de barro, violões em caixas de charuto e tábuas de lavar roupa, washboards em inglês, tocadas com os dedos e dedais metálicos, que acabaram sendo as precursoras da bateria.
 


Com o tempo, passaram a ter acesso a instrumentos de segunda mão, comprados nas casas de penhores, tais como rabecas, violões, banjos, gaitas e outros. Ao término das guerras de Secessão (1861-65) e da Hispano-Americana (1898-99), as bandas marciais foram desfeitas e seus instrumentos passados nos cobres.

Dizem que essa última guerra é a responsável pelo fato do jazz haver surgido em New Orleans, pois foi ali que as bandas se desfizeram e seus instrumentos trocados por uma noite de festa na badalada cidade. As vitrines das pawn shops amanheceram forradas de instrumentos reluzentes. Pode ser que em parte esta seja uma das razões, mas não se pode desprezar o fato de que aquela região, antiga possessão francesa, também era habitada pelos creoles, oriundos dos cruzamentos entre franceses e escravos.

Emancipados havia mais tempo, estes já dispunham de alguma educação musical formal e forte influência da música europeia, e compunham a maior parte dos músicos das brass-bands. O mais famoso deles é Scott Joplin (1868-1917), compositor de ragtime redescoberto na década de 70, quando sua música virou trilha sonora do filme O Golpe de Mestre (um filmaço por sinal!)
 

Outro fator que contribuiu para que o jazz surgisse por ali foi a colonização francesa, cuja formação católica era menos preocupada com a salvação da alma de seus escravos e, portanto, mais tolerante com seus rituais “pagãos” com toques de cristianismo, enquanto que nas áreas protestantes, os cultos negros permaneciam underground, e ainda tinham que enfrentar a proibição de se divertir aos domingos.

A música era usada para tudo. Todas as atividades eram acompanhadas pelas brass-bands. E elas tocavam em qualquer lugar: bailes, piqueniques, lutas de box, enterros, propaganda política e por vai. O saxofonista Sidney Bechet (1897-1959) conta que trabalhou numa certa época em um consultório dentário: enquanto o dentista extraía um dente, ele tocava clarinete para acalmar o paciente.

O crescente acesso ao instrumento não foi diretamente acompanhado pelo acesso à educação musical. A característica principal desses músicos era a improvisação coletiva em que tudo se encaixava perfeitamente. Como os líderes das bandas não sabiam ler música, tocavam os ragtimes de ouvido e executavam variações espontâneas das músicas, nascendo aí a improvisação consciente sobre um tema.

As matérias primas para esses músicos eram o ragtime, o blues, marchas militares, árias de ópera e o que mais lhes caísse nas mãos. Com o tempo foram surgindo temas próprios, mas a característica do jazz sempre foi a improvisação.


Nota 1: Esse texto não tem a mínima pretensão de ser uma tese sobre a história do jazz, é tão somente uma compilação de algumas publicações que eu tenho, tais como o livro Improvisando Soluções, de Roberto Muggiati, História Social do Jazz, de Eric J. Hobsbawm, Jazz, a History of America’s Music, de Geofrey C. Ward e Ken Burns, História do Jazz, uma coletânea de artigos que saiu em uma coleção de jazz da Ed. Abril, em 1975, além de Wikipedia, Youtube e outras ferramentas virtuais. Os estudiosos do jazz poderão achar os posts superficiais, mas de certa forma essa é a intenção. Feita essa importante ressalva, espero apenas que seja divertido.

Nota 2: Pessoalmente, não vejo na palavra “negro” qualquer sentido depreciativo, por isso não emprego indiscriminadamentes o termo “afro-americano” em substituição a ela. Nada contra a expressão politicamente correta, mas quase todas as fontes que consultei não a utilizam. Além disso, a palavra “negro” para mim é muito mais forte e bonita, e representa melhor a grande influência dos afro-americanos (agora sim) na música do século XX, XXI, XXII…

Nota 3: Essa Breve História foi publicada originalmente no blog Musicólatras.

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