quinta-feira, 1 de julho de 2010

A São Paulo do século XIX, por Álvares de Azevedo

A capital da solidãoExtraí o texto abaixo de A capital da solidão, uma história de São Paulo das origens a 1900, o imperdível livro de Roberto Pompeu de Toledo, que estou lendo pela segunda vez - e já programando a terceira. Neste capítulo, ele mostra como a pequena cidade de São Paulo era vista por seus habitantes no século XIX, sob diversos pontos de vista, como este, de Álvares de Azevedo, então estudante da Faculdade de Direito de São Francisco, baseado em cartas que este escrevia à família:

“No Macário, Álvares de Azevedo descreve uma cidade não identificada, mas que, sem dúvida, é São Paulo, desdenhada com os mesmos argumentos que aparecem nas cartas: ‘Demais, essa terra é devassa como uma cidade, insípida como uma vila, e pobre como uma aldeia. Se não estás reduzido a dar-te ao pagode, a suicidar-se de spleen, ou a alumiar-te a rolo, não entres lá. É a monotonia do tédio.’ Até o calçamento da cidade entra, como nas cartas, na contagem negativa do poeta: ‘As calçadas do inferno são mil vezes melhores.’ Das ladeiras às mulheres, nada se salva: ‘A cidade colocada na montanha, envolta em várzeas relvosas, tem ladeiras íngremes e ruas péssimas. É raro o minuto em que não se esbarra a gente com um burro ou com um padre.’ Quanto às mulheres, a queixa é de que ‘não há em parte alguma mulheres que tenham sido mais virgens que ali.’ Por fim, há um anátema contra o fundador da cicade: ‘Devia ser um frade bem sombrio, ébrio de sua crença profunda, o jesuíta que aí lançou nas montanhas a semente dessa cidade.’ Para Álvares de Azevedo, São Paulo tinha o gosto amargo do exílio. A cidade pesava-lhe como uma condenação.”

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