quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

caim

josé saramago

Capa Caim - José Saramago Terminei nesta semana a leitura do último livro de saramago, com minúscula mesmo, que é como ele escreve os nomes de todos os seus personagens, inclusive deus.

De todos os livros que eu li dele, esse é sem dúvida o mais engraçado. Irreverente ao extremo com os temas religiosos, saramago não deixa por menos nesse romance, o qual não recomendo a leitores religiosamente mais sensíveis, mesmo os que tenham gostado ligeiramente de o evangelho segundo jesus cristo.

Apesar do personagem principal, caim, ter uma passagem relativamente curta na bíblia, saramago o faz passear por várias épocas do velho testamento, ou diversos presentes, como caim os percebe, utilizando essas passagens para, através dos olhos e da boca de caim, travar as suas próprias discussões com deus (e algumas nossas também).

Começa pela criação do próprio mundo e da vida (não, aqui por enquanto caim ainda não estava presente), adão, eva, o paraíso, abel, caim (agora sim), o fraticídio, e a partir daí já a primeira discussão com deus, quando este diz a caim que não havia impedido o assassinato de seu irmão para o por a prova (e tu quem és para por a prova o que tu mesmo criaste?). Daí, sai caim pelo mundo até o final do livro, quando uma ação premeditada de caim ameaça mudar a história da humanidade, pelo menos na visão criacionista.

Caim está presente quando deus dizima sodoma e gomorra por não ter encontrado naquelas cidades sequer 10 inocentes (e as crianças? pergunta caim). Passa por jericó, torre de babel, arca de noé e outras paragens.

Presencia quando abraão leva seu filho isaac para ser sacrificado a mando de deus, ocasião em que intefere ligeiramente na história:

“(…) chegando assim ao lugar de que o senhor lhe havia falado, abraão construiu um altar e acomodou a lenha por cima dele. Depois atou o filho e colocou-o no altar, deitado sobre a lenha. Acto contínuo, empunhou a faca para sacrificar o pobre rapaz e já se dispunha a cortar-lhe a garganta quando sentiu que alguém lhe segurava o braço, ao mesmo tempo que uma voz gritava, Que vai você fazer, velho malvado, matar o seu prórpio filho, queimá-lo, é outra vez a mesma história, começa-se por um cordeiro e termina-se por assassinar aquele a quem mais se deveria amar, Foi o senhor que o ordenou, foi o senhor que o ordenou, debatia-se abraão, Cale-se, ou quem o mata aqui sou eu, desate já o rapaz, ajoelhe-se e peça-lhe perdão, Quem é você, Sou caim, sou o anjo que salvou a vida a isaac. Não, não era certo, caim não é nehum anjo, anjo é esse que acabou de pousar com grande ruído de asas e que começou a declamar como um actor que tivesse ouvido finalmente a sua deixa, Não levantes a mão ao menino, não lhe faças nenhum mal, pois já vejo que és obediente ao senhor, disposto, por amor dele, a não poupar nem sequer o teu filho único, Chegas tarde, disse caim, se isaac não está morto foi porque o impedi. O anjo fez cara de contrição, Sinto muito ter chegado atrasado, mas a culpa não foi minha, quando vim para cá surgiu-me um problema (…) se cá cheguei foi por milagre do senhor. Tarde, disse caim, Vale mais tarde que nunca, respondeu o anjo com prosápia (…) Enganas-te, nunca não é o contrário de tarde, o contrário de tarde é demasiado tarde, respondeu-lhe caim. O anjo resmungou, Mais um racionalista (…)”

Definitivamente, não é para pessoas sensíveis.

Que talvez possam preferir a versão gráfica do livro de Gênesis, de autoria de Robert Crumb, que também li recentemente e da qual reproduzo o mesmo capítulo acima, sem Caim, é claro.

 Gênesis -  cap.22 - Robert Crumb 01 Gênesis -  cap.22 - Robert Crumb 02 Gênesis -  cap.22 - Robert Crumb 03 Gênesis -  cap.22 - Robert Crumb 04

4 comentários:

Fernando J. Pimenta disse...

Robert Crumb ilustrou com maestria essa passagem bíblica, ótima ideia tê-la reproduzido aqui, Édison.

Fiquei impressionado também que leias Saramago! O único livro dele que peguei em mãos, Ensaio Sobre a Cegueira, achei-o particularmente difícil, para mim intragável. Tentei reiniciar a leitura do zero mais duas vezes seguidas e ainda não descia.

Enfim, minha admiração e apreciação pelos seus comentários muito iluminados sobre o livro. Bateu-me uma vontade de retornar ao Ensaio da Cegueira e verificar se aquela dificuldade que encontrei não foi uma de momento.

Té mais!

Edison Junior disse...

Fernando, gosto muito de Saramago. Ele tem um jeito próprio de escrever e construir suas frases e parágrafos, e leva umas páginas pra gente se acostumar com o ritmo, mas depois que a leitura engrena é muito legal. Tente, você vai gostar!

Daniel Argentino disse...

Edison parabens pela resenha, está excelente. Eu particularmente não conheço nada sobre o José Saramago, a não ser o livro que o Fernando citou " Ensaio Sobre a Cegueira". Já ouvi relatos de pessoas que leram e gostaram, mas que também falaram a mesma coisa, que é uma leitura um pouco complicada de entender.

Sobre o livro que você citou, achei até interessante, posso estar errado, mais o que eu percebi foi que o personagem só tenta questionar as coisas que Deus faz, como essa passagem sobre Abraão. Se um dia tiver a oportunidade de ler esse livro, irei ler. Boa dica.

Abraço e continue postando resenhas.

Daniel Argentino disse...

Edison queria propor uma dica.

Adiciona o aplicativo de SEGUIDORES aqui no blog, fica mais fácil para gente ficar sabendo sobre as novidades.

Abraço

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