sábado, 30 de janeiro de 2010

Aderbal e o Santo

AldeiaSua chegada era ansiada por todos naquela pequena cidade do interior. Sua fama o precedia e as histórias de seus milagres corriam por aquelas bandas. O Santo, como era conhecido, chegava no sábado pela manhã, conversava com habitantes locais ávidos por uma cura, escolhia dentre eles os que demonstravam maior fé, e programava o milagre para o domingo. Aos poucos eleitos, só lhes recomendava que rezassem durante toda a noite.

Naquele final de semana não foi diferente. A multidão reunida em frente à sua tenda armada na praça espiava curiosa o entra e sai de candidatos a uma cura.

- Nome?
- Aderbal.
- Hum… vejo que o senhor anda com o auxílio de muletas.
- Sim, sinhô, nasci com defeito nas perna, os dotô diz que num tem jeito, não...
- O senhor tem fé, Sr. Aderbal?
- Tenho sim, sinhô!
- Então vá para casa e reze bastante, meu filho. Volte amanhã às 8 horas que EU vou dar um jeito!

Cabana- Nome?
- Chossé.
- Como?
- Chossé, iqual o pai de chessus...
- Ah! E como posso ajudá-lo, Sr. José?
- É que eu costãria te ser lõcutõr te rátio e cum essa foz fanhossa num tá...
- O senhor tem fé, Sr. José?
- Ô!
- Mas precisa muita fé, Sr. José!
- Ih, Eu tenhõ é fé timãis!
- Então vá para casa e reze bastante. Volte amanhã às 8 horas, meu filho, que eu vou fazer sua foz, digo, sua voz, ficar maravilhosa!

Terminadas as entrevistas, o Santo fez um pequeno sermão, passou a sacolinha, aceitou uma refeição oferecida pelo Prefeito e recolheu-se em sua tenda para meditação até o dia seguinte, não sem antes realizar um culto-confraternização privado com alguma beatas que lhe parecereram especialmente gostosas, digo, devotas.

Na manhã do domingo a praça se dividia desigualmente. Numa extremidade, na escada da igreja, estava somente o padre, com cara desolada, observando a multidão do outro lado em volta da tenda do Santo.

José e Aderbal, com os olhos inchados pela vigília noturna, não viam a hora de se livrar de seus problemas. O burburinho da população silenciou quase de imediato quando ele saiu de sua tenda. Envolto num manto vermelho, o Santo abriu caminho e foi em direção a José e Aderbal.

Profeta 1- Vocês rezaram bastante, meus filhos?
- Sim, responderam quase em uníssono.
- Pois bem, vão para trás daquele muro.

Os murmúrios recomeçaram enquanto o claudicante Aderbal e José andavam até o local indicado, mas silenciaram novamente quando o Santo levantou as mãos.

Ele fechou os olhos e em êxtase gritou na direção do muro:

- Aderbal! Jogue sua muleta direita por sobre o muro!

Aflição da multidão nervosa quando a primeira muleta voou. Todos se deram as mãos esperando o que ia acontecer.

- Agora, Aderbal, concentre-se. Quando sentir-se confiante, jogue a segunda muleta!

Poucos segundos se passaram até que a muleta riscou o ar, levantando brados eufóricos e excitados da turba. Até o padre se aproximou. Fez-se silêncio novamente. Grande expectativa.

- Agora você, José! Fale alguma coisa!

 

Aderbal.jpg


Nota: ouvi essa piada há muitos anos num programa esportivo da antiga Rádio Gazeta, contada pelo Zé Italiano, e sempre gostei de contá-la.

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