segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Épocas perfeitas


O astrônomo Carl Sagan certa vez declarou que nasceu numa época perfeita. Segundo ele, se houvesse nascido 50 anos antes, teria perdido o início da exploração planetária, pois tudo àquela época ainda era apenas imaginação especulativa. Tivesse nascido 50 anos depois ele teria sido igualmente infeliz, porque teria perdido a emoção de presenciar o início da viagem a outros mundos.

“Em toda a história da humanidade haverá apenas uma geração que será a primeira a explorar o sistema solar. Uma geração em que, durante sua infância, os planetas eram discos distantes e indistintos movendo-se no espaço e, em sua velhice, são novos mundos”.

Numa época de incríveis mudanças é comum a gente se impressionar com a velocidade com que isso ocorre e eu mesmo já coloquei um post neste sítio falando sobre isso.

Na chamada do livro “Uma breve história do século XX”, de Geoffrey Blainey, diz-se que o século que passou foi o mais apaixonante da história. Nele ocorreram as duas maiores guerras da humanidade, ascensão e queda dos regimes comunistas, por si só uma novidade, um colapso da economia de proporções inimagináveis e sua dura recuperação, o declínio das monarquias e grandes impérios, o surgimento da sociedade de consumo com seus eletrodomésticos, celulares e computadores pessoais, a comunicação em massa, o cinema, o rádio, a televisão, a internet, a valorização do esporte e o endeusamento de esportistas e artistas, a descoberta do DNA e outros maravilhosos avanços na medicina, e a revolução nos transportes, culminando com as viagens espaciais.

E a gente vendo tudo isso ao vivo!

Houve um tempo na história da humanidade, contudo, em que a meu ver as mudanças foram ainda mais incríveis. Mais radicais até. Num período de cento e poucos anos a partir de 1450, ocorreram mudanças substanciais na forma de pensar e ver o mundo como era conhecido até então, principalmente na parte ocidental da Europa.

Para começar, no início do período mencionado, Gutenberg inventou a prensa com tipos móveis, que resultou no acesso à leitura e conhecimento a cada vez mais pessoas. A Bíblia, ao ser impressa de forma mais barata, deixou de ser um livro a que apenas uns poucos escolhidos tinham acesso. De repente, todo o conhecimento da humanidade poderia ser colocado no papel, lido e distribuído para quem quisesse ou soubesse ler, o que não era muito comum naqueles tempos, é verdade.

No norte da Itália, pintores, arquitetos e escultores passaram a ver e fazer arte de uma forma totalmente nova, que ficou conhecida como Renascimento, pois buscavam resgatar o mundo esquecido da antiga Grécia. Michelangelo pintou o teto da Capela Sistina financiado com o dinheiro que a Igreja obtinha da cobrança de impostos e venda de indulgências. Indulgências essas que provocaram uma reação em um grupo de religiosos que culminou na Reforma e um novo ramo no cristianismo, o protestantismo.

Os cientistas eram filósofos e mudaram a forma do homem pensar. Foi uma época de experimentação, curiosidade de aprender e investigação de questões vitais. Todo mundo passou a ser um potencial explorador. O corpo humano passou a ser mais estudado. Teólogos e pregadores acreditavam ter redescoberto a natureza humana. Os astrônomos e navegadores redesenharam o mapa do mundo.

Nicolau Copérnico afirmou pela primeira vez, em alto e bom som, que a Terra girava em torno do Sol. Explicou os movimentos de rotação e translação e serviu de ponto de partida para os cientistas que vieram um pouco depois, Kepler, Galileu e Newton.

Quase ao mesmo tempo, graças às novas invenções, a bússola e o astrolábio, Espanha e Portugal iniciavam suas viagens exploratórias indo cada vez mais longe, estabelecendo seus impérios na América e na Ásia. Começaram tateando a costa da África, chegaram à América e deram a volta ao Mundo.

De repente, a Terra não era mais plana!

(Na verdade, ao contrário do que costumamos aprender, as pessoas um pouco mais instruídas da época já sabiam que a terra era redonda).

Ao mesmo tempo, Leonardo da Vinci já sonhava em fazer a mesma coisa que Vasco da Gama, Colombo e Cabral, só que na atmosfera. Entre a pintura da Mona Lisa e da Última Ceia, projetou um canhão longo o suficiente para lançar um foguete ao espaço. Estudou o voo dos pássaros e o funcionamento de suas asas.

“Ser ou não ser?”, perguntou Shakespeare em sua peça Hamlet. Essa era a grande questão.

É bom viver na mesma época de Carl Sagan, mas não teria sido de todo mau ser contemporâneo de da Vinci, desde que tivéssemos a mente aberta para entender o que estava acontecendo. E, claro, uma internetzinha para acompanhar tudo aquilo.


Fontes:
- Uma breve história do mundo, de Geoffrey Blainey
- Uma breve história do século XX, de Geoffrey Blainey

- O mundo de Sofia, de Jostein Gaarder
- This new ocean, de William E. Burrows

2 comentários:

Marília disse...

Bom, Júnior.

Waldomiro Lessa disse...

De repente voce criou " Uma brevissima historia do mundo". Brevissima mas tambem muito bem sintetizada. Bjs

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