segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Feliz Ano Novo!


Nas festas de Ano Novo a gente, eu também, põe fé em que de uma hora para outra, ou melhor, de um segundo para outro, uma vida nova se abrirá à nossa frente e tudo vai ser diferente, incluindo nossa disposição em cumprir antigas determinações como parar de fumar, emagrecer, ler mais etc. Isso sem falar que, com o Horário de Verão, no momento em que celebramos a meia-noite são, na verdade, 11 horas da noite...

A data de início de um ano como a conhecemos hoje foi determinada e modificada de forma absolutamente arbitrária. Sua origem remonta a uma época em que os eventos naturais orientavam e davam sentido à vida das pessoas, como um novo ciclo de colheitas, a posição da lua ou algum outro sinal do céu, conforme determinado em cada região ou religião. Os judeus, por exemplo, marcavam o início de seu ano pela coincidência de dois fenômenos independentes: o sinal das espigas de cevada aparecendo nas plantações e o primeiro sinal da lua nova.

No auge de Roma, Júlio César promoveu a reforma do calendário, abandonando o ciclo da lua e adotando ao ano solar, que se estendia por 365 dias, 5 horas, 48 minutos e 45 segundos. Essas horas quebradas que sobram criavam uma dificuldade para o novo calendário. A solução adotada no calendário juliano, assim chamado em sua homenagem, foi arredondar e considerar que o ano tem 365 dias e um quarto. Assim, o ano passou a ter 365 dias e, a cada quatro anos, um teria 366 dias, o nosso conhecido ano bissexto.

Essa pequena diferença entre as 5 horas, 48 minutos e 45 segundos e as 6 horas que constituem um quarto de dia, provocava um atraso no calendário cuja dificuldade só foi aquilatada muitos anos depois. A cada ano o calendário perdia 11 minutos, ou 7 dias em mil anos, interferindo até na determinação do Domingo de Páscoa, um evento desconhecido na época de César.

Em 1582, o Papa Gregório XIII, utilizando cálculos do astrônomo e médico napolitano, Luigi Ghiraldi, anunciou que naquele ano seriam eliminados 10 dias, que iam de 5 a 14 de outubro. Para que o mesmo não voltasse a ocorrer no futuro, o ano bissexto, que ocorre a cada 4 anos, não ocorreria nos anos múltiplos de 100, com exceção dos múltiplos de 400. Para simplificar, os anos de 1600 e 2000 foram bissextos, mas 1700, 1800 e 1900 não o foram.

Imaginem o espanto da população da Espanha, Itália e Portugal, vendo sumir 10 dias de suas vidas numa simples canetada. Os países protestantes, embora reconhecendo o acerto da medida, relutavam em adotar um calendário estabelecido por um Papa, assim, durante muito tempo, a Europa teve dois calendários diferentes, muitas vezes entre cidades vizinhas. Quando era Natal na Inglaterra, do outro lado do Canal da Mancha já era janeiro.

A Inglaterra mesmo só foi adotar o calendário gregoriano em 1752, quando 11 dias tiveram que ser apagados. A folhinha pulou de 2 de setembro para 14 de setembro, causando desordem e consternação. Campanhas nas ruas pediam “devolvam nossos dias!”. A Rússia, que seguia a igreja católica oriental ou ortodoxa, só o fez em 1917, e somente após a revolução comunista.

O Padre Gregório provavelmente adotou como referência uma data próxima ao do nascimento de Cristo que, como sabemos, também não foi no dia 25 de dezembro do ano 1, mas uns 4 anos antes, por volta do mês de março ou abril. Aliás, Cristo deveria ter nascido no ano 0 (zero), mas este não existiu.

Enfim, curiosidades a parte, as datas são apenas convenções que seguimos e fingimos acreditar em sua precisão. O que vale é o espírito da data.

A propósito, um Feliz Ano Novo para você, caro leitor!



(Texto extraído e adaptado do livro “Uma Breve História do Mundo”, de Geoffrey Blainey)

Um comentário:

Fernando Lessa disse...

Caraca, não sabia de nada disso. Apenas a parte do calendário criado por Julio Cesra. Como sou ignorante! Seu BLOG também é "curtura".

Mas, erudição e informação à parte, vale mesmo o espírito das datas e a renovação que elas nos trazem. Uma motivação muito importante.

Abração.

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