quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Túmulo do Soldado Desconhecido


No meu primeiro ano de Ginásio, em uma escola pública da qual ainda vou escrever alguma coisa aqui, tínhamos aulas de Francês, ó que chique! Numa das primeiras aulas, a professora exibia uns slides com fotos de Paris e contava coisas sobre a França, acho que para ambientar e interessar os alunos. E conseguia. Torre Eiffel, Champs Elisée, Louvre, Notre Dame, Arco do Triunfo. Nessa hora, ela nos informou que havia ali um tal de “túmulo do soldado desconhecido” em homenagem aos mortos da 1ª ou 2ª guerra mundial.

Sabe aquela hora em que a gente perde uma grande chance de ficar calado? Pois bem, perguntei:

- Mas quem era o soldado desconhecido?

A gargalhada foi geral, até a professora perdeu um pouco de sua compostura.

Abro aqui um parêntese. É claro que eu entendi o espírito do dito monumento, mas me interessava saber se para a tal homenagem haviam escolhido algum herói de guerra ou coisa parecida. Claro também que não deu tempo de explicar isso. Fazendo uma regressão, acho que foi nesse exato momento que adquiri meu temor de falar em público. Psicologia barata. Apenas imagino que tenha sido aí a inflexão, pois minha mãe garante que eu era uma criança bastante extrovertida. Fecha parêntese.

Lembrei-me dessa história, porque estou terminando de ler um livro de Gore Vidal, chamado Hollywood, onde ele dá a definição definitiva do que é um “soldado desconhecido”.

“... Olhou com melancolia para o caixão de pinho, envolto na bandeira, que continha os restos do “soldado desconhecido”, um fetiche corrente no mundo inteiro: os líderes mundiais enterravam um conjunto de ossos não identificados, honrando assim, como eles gostavam de dizer, as multidões anônimas que eles próprios tinham sacrificado à toa.”

Ah, se eu soubesse disso...

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Diálogos


Discussão entre dois funcionários do Wal Mart, ambos com forte sotaque nordestino, no meio dos corredores do supermercado. Ela para ele:

- Mas tu é ruim, mesmo! Tu é ruim q'nem o jumentinho que te trouxe!

Novembro, 2003

In taberna quando sumus (non curamus quid sit húmus)


Se algum dia a Fortuna me colocar como dono de um bar, esse vai chamar-se “In Taberna quando sumus (non curamus quid sit humus)”. Combinaria com uma decoração medieval. O som, baixo o suficiente para que as pessoas conversem sem precisar gritar, vai variar da música barroca até a bossa nova, passando por jazz e MPB.

O nome vem da ópera profana Carmina Burana, composta por Carl Orff. Adoro essa peça, embora uma propaganda de biscoito a tenha transformado em carne da vaca. É aquela que começa assim: “Ó fortuna!”, esclareceu?

Já fui a duas apresentações, uma no Pacaembu que, embora tenha sido uma montagem magnífica, foi muito prejudicada por um helicóptero que sobrevoava o estádio no meio da peça fazendo propaganda do filho da puta do Banco 1, e a outra no Credicard Hall, a que eu fui com a Simone e as crianças. Nessa última, quase perdemos a hora. Ô lugarzinho difícil de achar, e cada vez que você perde tem que dar uma puta volta. Fui ficando nervoso, corri com o carro e deixei os demais membros da família nervosos e preocupados com minha saúde mental... aliás, eu também fiquei...

Uns tempos atrás, comecei a traduzir a letra da ópera para o português, pois só tinha as versões originais e em inglês. Escusado dizer que estava traduzindo do inglês, uma vez que o texto original mistura, latim, alemão arcaico e um pouco de francês, línguas que não domino fluentemente. Depois descobri na internet que já havia versões em português e parei.

Ah, o significado do título é bastante apropriado, quer dizer “Quando estamos na taverna esquecemo-nos que viemos do pó”.

Bom, afinal, talvez eu não tenha perfil de dono de taverna. Aliás, perfil é a puta que o pariu, perfil é papo de gente de RH, argh!!!

Qui nos rodunt confundantur

(malditos sejam aqueles que nos ofendem)

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Filme sem fim...


Era preciso dar uma lição naquela velha xereta. Pelo menos foi a essa conclusão que chegou o casal que morava na casa em frente. Viviam os dois intensamente a vida de recém-casados, cada qual com seu trabalho, sem horário para sair ou chegar e sem se preocupar com a vida dos outros. Isso até que começaram a reparar que a distinta senhora, que tão amavelmente os recebeu no dia em que eles se mudaram para lá, e que sempre se prontificava a tomar conta da casa quando eles viajavam, na verdade usava isso como pretexto para imiscuir-se na vida deles. Talvez fosse apenas a forma dela voltar ao tempo em que também era jovem e recém-casada, pelo menos assim pensaram no início, porém sua contínua intromissão começou a incomodá-los. Surpreenderam-na várias vezes espionando pela janela e até fuçando na caixa do correio. Não podiam ter uma discussão e lá estava ela espiando por trás da cortina.

Era preciso dar uma lição naquela velha xereta. Iriam simular uma briga e, quando tivessem certeza de que ela estaria à espreita, ele fingiria bater na esposa com algum objeto, levaria seu corpo até o carro, colocaria no porta-malas e sairia dirigindo, dando uma volta suficientemente grande para que a senhora tivesse tempo de chamar a polícia. Voltariam para casa a tempo de ver a cara dela se explicando para os policiais.

Armaram o cenário. Começaram a discutir próximos à janela, de forma a serem vistos por ela. Quando tiveram certeza de que ela estaria olhando, ele pegou um bastão de baseball (sim, porque o filme era americano) e fingiu dar-lhe na cabeça.

Do outro lado da rua a preocupada senhora viu o rapaz arrastar o corpo da jovem esposa até a garagem, colocá-la no porta-malas, entrar o carro, dar a partida e sair voando da casa. Correu para o telefone, entre nervosa e excitada, e discou para a polícia.

Mal virou a esquina, o marido, desatou a rir imaginando a cara da velha dali a cinco minutos quando retornassem à casa. Ele iria até a praça dali a dois quarteirões e a esposa desceria do carro. Claro, não podiam fazer isso naquela rua movimentada, pois chamaria muito a atenção. Ah, só eles mesmo! Que dupla faziam! Tinham, é óbvio suas rusgas, mas quem não as tem? Eles sempre foram cúmplices, assim como estavam sendo naquele momento.

O sinal fecha. O carro da frente freia bruscamente. Ele também. O carro de trás não. A batida é inevitável. O rapaz desce atordoado do carro e vê seu porta-mala todo amassado. Só pensa em sair dali. Entra no carro e sai em disparada. Estaciona em um local isolado e abre a tampa. Vê sua esposa morta com um ferimento na cabeça.

Que vai fazer agora? Como vai explicar isso à polícia? Deveria esconder o corpo? E o testemunho da velha? Deveria matá-la também?


- Junior! Tá na hora de dormir!

Jamais soube o que aconteceu depois. Já estava tarde e minha mãe me mandou ir dormir. Naquela época eu era pequeno e tinha que dormir quando ela estava com sono. Jamais soube que filme era esse e nunca mais consegui assisti-lo de novo. Só me lembro que era em preto e branco, talvez um episódio da série Além da Imaginação. Alguém sabe? Me ajudem!

domingo, 20 de janeiro de 2008

A droga do dote é todo da gorda


O título deste post não faz qualquer sentido, mas está aí por ser um belo exemplo de palíndromo. Acho interessantes essas frases e descobri há tempos um site em que uns caras as colecionavam. O engraçado é que tem gente que passa um bom tempo de sua vida dedicada a inventá-las.

Muitos dos palíndromos são meio forçados, mas alguns são realmente bem bolados e coloco-os aqui, pois o referido site foi tirado do ar.

A base do teto desaba
A breve verba

A dama cai acamada
A diva em Argel alegra-me a vida
A droga do dote é todo da gorda
A grama é amarga

Ah! Na manha...
A Marta trama
Ame o poema
Anotaram a data da maratona

Argamassa magra
A tua pauta
E até o Papa poeta é!
É, tio, na Somália bailamos à noit
e
Laço bacana para panaca boçal
Luz azul
O ânimo domina-o

O azarado teme toda razão
O baronato bota no rabo
O cio na rapariga agirá paranóico
O pó de cocaína mata maníaco cedo, pô!
O treco certo
O trote do bode torto
Saíram o tio Sá e as oito Marias
Seco de raiva, coloco no colo caviar e doces
Soa como caos

Socorram-me, subi no ônibus em Marrocos
Tucano na CUT
Ué, ó droga, gordo eu?
Zé de Lima, rua Laura mil e dez

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

MERDA!

Exclamou a princesinha...

Ingrêis


Me contaram:

Um candidato a professor de inglês na AACM, com forte sotaque nordestino, é convocado para a entrevista de emprego:
Examinador: Quer dizer que você morou na Inglaterra?
Candidato: Sim, senhor, por 1 mês!
Examinador: Muito bem, então vamos vazer a entrevista em inglês. How do you do?
Candidato (hesitante): Hum, num sabe? Meu problema é esse 'do'...

Presenciadas por mim:

Eu: O que vem no X-Tudo?
Vendedor: Tem carne, queijo, bacon, alface, tomate, ovo, presunto...
Eu: Presunto também?
Vendedor: Claro! É X, né? Tem que ter presunto!
(De um vendedor em Ponta Porã – 1992)

Funcionário: Olha, não vai dar, a camiseta para receber a estampa tem que ser 100% algodão e essa tem cotton...
Eu: Mas cotton é algodão!
Funcionário: Claro, claro...
(Vídeo Foto Matriz – 2004)

Estava andando pela rua e flagrei um pedacinho de conversa de uma moça no orelhão:
- Ai, agora não vai dar pr’eu ir aí. É que eu tenho que ir pro ingrêis...
(Fevereiro – 2005)

domingo, 13 de janeiro de 2008

Autorreflexão

Uma vez ouvi uma conversa entre duas pessoas desconhecidas (que feio!), mas guardei até hoje a citação que uma fez à outra: "Amo a liberdade. Por isso, as pessoas a quem amo eu as deixo livres. Se voltarem é porque são minhas. Se não voltarem é porque nunca as tive". Embora desconheça o autor da frase, desde então faço disso o meu lema.

Outra coisa que valorizo é a paz de espírito. Defendo meus direitos até o ponto em que isso não me perturbe essa paz. Se for perturbar, danem-se meus direitos, o preço é muito alto, a vida é muito curta e não tenho tempo a perder.

Adoro ler, mas sou incapaz de reter por muito tempo os detalhes da história que li. Isso é bom, pois me permite reler com renovada surpresa os livros de que gostei. Em tempo, pelo menos costumo me lembrar se gostei do livro ou não.

Música, então, nem se fala. Gosto de todas as músicas que eu gosto. Das outras não muito. Não obstante, é muito mais provável que eu goste mais de um Jazz ou MPB do que música sertaneja ou funk. 

Trabalho muito, mas só por obrigação. Meu sábio avô sempre me perguntava: "quem foi o imbecil que disse que o trabalho enobrece?"


Eu e o dinheiro temos uma mútua relação de desapego.

Por algum motivo que me escapa, sempre procuro fazer as coisas de forma simétrica. Nunca saio do banho com sabão num ouvido só. Ou me esqueci de tirar o sabão dos dois ou saem ambos limpos.

Vivo de acordo com os meus princípios, embora não saiba muito bem quais são eles. Acredito piamente que normas e procedimentos foram criados para orientação das pessoas sábias e obediência dos tolos. Sou obediente a maior parte do tempo.

Não gosto de maltratar animais, mas de vez enquando eu desmancho um topo de formigueiro. É que meu lado corporativista quer manter o emprego das formiguinhas construtoras.

Não sou do tipo social e muito menos popular. Tenho momentos de irritante retração e sempre me sinto melhor em casa do que fora. Normalmente as pessoas gostam mais de mim quando me conhecem melhor. A primeira impressão raramente é favorável.

Deve ser porque quanto mais velho f
ico menos me levo a sério. Compenso isso com sarcasmo, algumas vezes empregado na hora errada e com a pessoa errada.

Sou paulista, paulistano e são-paulino.


Vem daí meu preconceito com relação a cor. Preto com branco simplesmente não combinam. Verde e branco também não. Vermelho, branco e preto fica muito mais bonito!

Por fim, mas acima de tudo, adoro minha mulher e meus filhos. Considero-me um pai bastante maternal.

Livre pensar é só pensar




Atendendo a inúmeros pedidos meus, resolvi criar esse cantinho para fazer download de alguns pensamentos.

Quando Millôr Fernandes cunhou a frase que dá título a esse post, ainda não existiam computadores pessoais, internet, blogs etc. Nem Isaac Asimov nem Júlio Verne imaginaram alguém sentado, num domingo à tarde, em sua própria casa, escrevendo algo que qualquer pessoa no mundo pudesse ler quase que simultaneamente. No entanto, ironicamente, o mais provável é que muito pouca gente leia isso.
Existe algo mais egocêntrico?

Vamos ver aonde nos leva essa viagem.
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