terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Reforma Ortográfica


A partir de 1º de janeiro próximo passarei novamente pela experiência traumática de ter que reaprender a escrever, graças à revisão ortográfica que padronizará a língua portuguesa escrita em todos os países que cultivam a última flor do Lácio.

Está tudo muito bem, é assim que tem que ser, mas não poderiam ter feito isso antes de eu nascer?

Já é a segunda reforma que eu pego. Quando eu aprendi a escrever, a duras penas lá pela metade dos anos 60, algumas regras eram diferentes das de hoje. Por exemplo, a crase, que hoje só usamos quando há a junção da preposição “a” com o artigo idem, era usada também no caso em que tínhamos uma palavra oxítona agudamente acentuada e essa palavra recebia um sufixo, caso do “só” e “sòzinho”, “café” e “cafèzinho”. Alguém se lembra disso?

Basta ler um livro um pouco mais antigo, que a gente vai encontrar essas e outras palavras que perderam seus acentos, como “dêles”, “nôvo”, “retôrno”, “êste”, “côro” e por aí vai. Vamos combinar que não fizeram falta nenhuma, né?

Assim como não farão falta os acentos e hífens que cairão na reforma que se avizinha. Aliás, aproveito esse meu cantinho para fazer um pequeno resumo das reformas que, se mais benefício não tiver, pelo menos me servirá para já ir praticando.

DIVERSOS

- Voltam o K (ki bom!), o W (sempre usei no meu sobrenome) e o Y (que não sei para que serve).
- Está extinto o trema na letra “u”, com exceção dos nomes (Müller) e das palavras estrangeiras (inútil consideração, mesmo porque a reforma é só na língua portuguesa).

ACENTOS

- Não se usa mais o acento nos ditongos abertos “éi” e “ói” – “alcaloide”, “alcateia”, “boia”, “colmeia”, “epopeia”, “geleia”, “ideia” e “plateia”, mas vale somente para palavras paroxítonas, pois “herói” continua com acento, mas “heroico” não.
- Ainda nas paroxítonas, não se acentua mais o “i” e o “u” tônicos, como em “baiuca” e “feiura”
- Não se usa mais acento em palavras terminadas em “êem” o “ôo”, por exemplo: “abençoo”, “creem”, “deem”, “perdoo” e “zoo”.
- Não se usa mais o acento para diferenciar “pára” de “para”, “péla” de “pela”, “pólo” de “polo”, “pêra” de “pera” e “pêlo” de “pelo”.
- Permanece em “pôde” e “pode”.
- Permanece em “pôr” e “por”.
- Permanecem nas palavras em que o acento distingue o singular do plural: “têm”, “vêm”, “mantêm”.
- Porém em “fôrma” e “forma” o acento é facultativo (que engraçado)

HÍFEN (essa palavra terminada em “n” é o que há...)

Prefixos em geral:
- Sempre se usa o hífen diante de um “h”: “anti-higiênico” e “super-homem”.

Prefixo terminado em vogal:
- Sem hífen diante de vogal diferente: “autoescola” e “antiaereo”. (hiii, os donos de autoescola vão ter que mudar de novo as placas...)
- Sem hífen diante de consoante diferente de “r” e “s”: “anteprojeto” e “semicírculo”.
- Se a consoante for “r” ou “s”, dobra-se a consoante: “antirracismo” e “ultrassom”.
- Se for a mesma vogal, mantém o hífen: “contra-ataque” e “micro-ondas”.

Prefixo terminado em consoante:
- Permanece o hífen diante da mesma consoante: “inter-regional” e “sub-bibliotecário”.
- Cai o hífen diante de consoante diferente: “intermunicipal” e “supersônico”.
- Cai o hífen diante de vogal: “interestadual” e “superinteressante”.
- Com o prefixo “sub” usa-se o hífen diante de palavra iniciada por “r”: “sub-região” e “sub-raça”.
- Palavras iniciadas por “h” perdem essa letra e o hífen: “subumano”.
- Com os prefixos “circum” e “pan”, usa-se o hífen diante de palavra iniciada por “m” e “n”: “circum-navegação” e “pan-americano”.
- O prefixo “co” aglutina-se em geral com o segundo elemento: “coobrigação”, “coordenar” e “cooptar” (ué, nunca escrevi “coordenar” com hífen.)
- Com o prefixo “vice”, usa-se sempre o hífen: “vice-presidente”.
- Não se usa o hífen em palavras que perderam a noção de composição, como: “girassol”, “mandachuva”, “paraquedas” e “pontapé”.
- Sempre se usa o hífen com os prefixos “ex”, “sem”, “além”, “aquém”, “recém”, “pós”, “pré”, “pró”: “ex-aluno”, “sem-terra”, “além-mar”, “aquém-mar”, “recém-casado”, “pós-graduação”, “pré-vestibular” e “pró-europeu”.

Fonte: Guia Prático da Nova Ortografia, Douglas Trufano, Ed. Melhoramentos.

E, desde já, quero dar minha contribuição para a próxima reforma, daqui uns 40 anos, para acabar com outras inutilidades da nossa língua que, quando se forem, também não farão falta. Por mim, já poderíamos eliminar o hífen em vários outros casos também. Por que escrever “levar-lhe” se posso escrever “levarlhe”? Ora, se o espanhol consegue fazer isso sem dar confusão, nós também conseguiremos!

Vamos também aproveitar e acabar com outras bestices, tais como:

1) “Qualquer” deve ser a única (acho) palavra cujo plural fica no meio – “quaisquer”, que é pernóstico paca, ninguém fala assim, no máximo escreve. Muito mais simples é escrever “qualqueres”, por exemplo: “Se restar qualqueres dúvidas, me ligue.”

2) Por falar em “muito”, proponho que passemos a escrever “muinto”, pois é muinto mais lógico, principalmente para uma língua que se orgulha de ter as letras sempre pronunciadas da mesma forma e achar que tem essa vantagem sobre o inglês.

3) E vamos acabar com essa palhaçada de escrever sílabas homófonas de forma diferente! “recesso” e “resseção”, por exemplo, são grafadas distintamente pela origem que têm, mas como pouca gente tem um dicionário etimológico em casa, podemos facilmente padronizar a grafia das sílabas sem que ninguém perceba. Acha pouco? Pense nos “sargentos” e nas “sarjetas”, ou os clássicos “sessão”, “seção” e “cessão”, pesadelos de todo estudante.

Pronto, falei. Está lançada a idéia!

P.S. 1 Antes que alguém dê uma de engraçadinho, informo que quando aprendi a ler, farmácia já se escrevia com “f”. A reforma que acabou com o “ph” quem pegou foi meu avô.

P.S. 2 Só me resta convencer o corretor ortográfico do Word a aceitar a nova gramática. Deu um trabalhão escrever esse texto com ele me corrigindo o tempo todo...

4 comentários:

Marília disse...

Aprender as novidades vai ser uma bela mão-de-obra!
...ou será mão de obra...ou mesmo mãodeobra...?

Junior disse...

Aha! Boa pergunta!

No meu Aurélio, "mão-de-obra" realmente tem hífen, portanto, pelo que está aí em cima, deve ser "mãodeobra". Horrível!

Safou-se o "bafo de onça", pois não tem hífen, segundo a mesma fonte, evitando-se o realce do cacófato: "bofodeonça".

Junior disse...

Acho que é por isso que essa desifenização aplica-se somente aos prefixos...

Mário Júnior disse...

Essa reforma de certa maneira foi positiva, pois dará uma padronização aos países que tem a língua portuguesa como principal. Vi algumas notícias sobre a aprovação da mesma meses atrás.

Para me acostumar, já não utilizo mais o trema. Mas não foi apenas isso o aprovado, terei que me informar [muito] mais.

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