segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Jeitos e Costumes


Estou lendo um livro chamado “Um canal separa o mundo”, escrito por Caio de Freitas no início da década de 60, que fala sobre o período de dez anos em que o autor viveu na Inglaterra. Seu maior enfoque é sobre o British Way of Life e seus usos e costumes.

Num dado momento, ele explica que “os ingleses têm horário para tudo e os prazeres da vida só são acessíveis dentro da tabela de tempo, controlada pela tradição. (...) só se pode beber das onze horas da manhã às duas e meia da tarde e, depois, das cinco da tarde às onze horas da noite.

O almoço e o jantar são servidos a horas regulamentares e não é permitido que se tome chá à hora do jantar, ou que se almoce no horário do chá. Nas confeitarias há doces que são para ser levados pelo freguês, há outros que só podem ser comidos no estabelecimento, há uns que são para a hora do chá e há outros ainda que se destinam à sobremesa.”

Para exemplificar, ele cria um diálogo imaginário numa confeitaria, começando pela abordagem solícita do garçom a um cliente latino desavisado:

- Em que posso servi-lo?
- Desejo um daqueles doces. Aqueles com morango por cima.
- Para levar ou comer aqui?
- Para comer aqui.
- Sorry, Sir. Aqueles são só para levar.
- Dê-me então um daqueles outros... daqueles que parecem torta de maçã.
- Sorry, Sir. Aqueles destinam-se à sobremesa e não estamos na hora do jantar.
- E este aqui?
- Quanto a este, está bem, mas o cavalheiro não pode comê-lo aqui, de pé.
- Não posso? Não disse que esse era para comer aqui?
- Sorry, Sir. Mas para comê-lo aqui, terá de se sentar e tomar chá também.
- Mas eu não quero tomar chá!
- Sorry, nesse caso não poderei vendê-lo.

Fiquei imaginando que o escritor tenha exagerado a situação para reforçar seu ponto de vista, ou que, no mínimo, pela época pré-beatles em que o livro foi escrito, isso poderia de alguma forma ter mudado.

Mas depois eu me lembrei de um fato que aconteceu comigo, em 1983, na minha primeira viagem ao exterior, mais precisamente a Nova York. Ou seja, outra época, outro lugar. Mas povos de mesma formação.

Caminhamos a manhã inteira pelas ruas de NY. Quando o pescoço começou a doer, eu finalmente entendi porque Tom Jobim dizia que essa é uma cidade para se visitar deitado numa maca. Pois bem, na hora do almoço, entramos uma lanchonete com uma fila enorme. Pedi um sanduíche e um suco.

O suco que veio foi insuficiente para minha sede e não durou nem até a metade do sanduíche. Tal era a sede, que voltei e enfrentei a fila novamente. Na minha vez, pedi:

- An orange juice, please.
- What else?
- Nothing. Only the juice.
- I can’t sell you a juice only. You have to buy a sandwich too!

Note a diferença de educação entre o garçom inglês fictício e a atendente da lanchonete.

Tentei argumentar que eu já havia comprado e até comido o sanduíche e que só queria matar a sede, mas não teve jeito. Tamanha era minha estupefação, que primeiro duvidei do nível do meu inglês (lembre-se que era a minha primeira viagem), mas pouco a pouco fui me tocando de que naquela loja eu não beberia o suco. Saí e fui comprar em outro lugar.

É, cada povo com seu costume, mas cada costume besta que tem por aí...

Um comentário:

Mário Júnior disse...

Não li o livro que você citou, do Caio de Freitas, mas - certamente - ele exagerou na situação descrita.

É claro que os ingleses levam uma vida bastante regrada, inclusive no que tange aos horários - daí vem a dita "pontualidade britânica" -, mas a situação entre o garçom inglês e o latino desavisado é deveras obtusa.

Chega a parecer filme de comédia, episódio de Chaves ou qualquer coisa similar.

A sua situação é semelhante, mas não extrapolou o fato de você ficar pulando de pedindo em pedido para ouvir sucessivos "não pode".

E que bacana saber que você já fez uma viagem tão bacana. Quero fazê-la também! :)

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