sábado, 18 de outubro de 2008

O dia em que Mané chegou ao inferno – Por Roberto Vieira


Quando Mané Garrincha faleceu, o inferno ficou em festa. O time das profundezas não ganhava um jogo há séculos, por mais que reforçasse seu time com zagueiros sanguinários e juízes mafiosos. No final, o time do Céu fazia um gol de placa ou um gol espírita. Coisas do presidente da federação.

Mas agora seria diferente, agora chegava Mané Garrincha. Um demônio na ponta direita, um demônio com as mulheres, um péssimo exemplo para as novas gerações de atletas globais. Um pinguço.

Garrincha chegou e logo foi apresentado ao demo em pessoa. Demo que confessou sua admiração pelo craque. Mostrou até uma coleção de DVDs com os dribles de Mané, com os marcadores caídos no chão.

Garrincha não entendia muito bem o que estava acontecendo, apenas viu um contrato sendo estendido na sua frente. Bastava assinar e teria todas as regalias de um craque. A camisa sete vermelha já estava até preparada para as fotografias dos jornais.

Tudo corria bem até que chegou Pedro:

"Parem, que o Chefe está uma fera!"

O diabo olhou pra Pedro desconfiado:

"Pedro, deixa de história! O Mané aqui tem pecado além da conta. O lugar dele é no inferno!"

Pedro recuperou o fôlego, guardou as chaves no bolso e foi avisando:

"O Chefe mandou chamar o Garrincha. Disse que o lugar dele é lá em cima!"

O demo deu duas voltas, soltou fogo pelas ventas e gritou todos os palavrões que sabia. Quando recuperou o fôlego disse que aquilo infringia as regras da eternidade. Mané era culpado de milhares de crimes. O Chefe estava abusando de sua autoridade, a alma de Garrincha pertencia ao reino das trevas.

Pedro se preparava para responder quando o Chefe apareceu em pessoa. Vestindo o uniforme da torcida organizada do paraíso. Abraçou Garrincha, perguntou pelos joelhos e disse que esquecesse aquele negócio de contrato. O acerto entre eles seria apenas de Pai pra filho.

Olhando o diabo que se afastara para um canto, mandou um recado celestial:

"Belzebu, não basta a miséria onde Garrincha viveu? Não bastam as doenças, a ignorância, o roubo nas mãos dos dirigentes? Não basta o esquecimento na velhice? A morte lenta e dolorosa? Não basta o inferno na terra? Mané é nosso, e te prepara Bel, que o inferno vai ficar cheio de João!"

E pegando Garrincha pela mão, concluiu, enquanto caminhava rumo ao infinito:

"Você já conhece o truque de transformar água em vinho?"

*Mané Garrincha faria 75 anos hoje segundo sua certidão de nascimento, embora, na verdade, tenha nascido em 28 de outubro de 1933.


Extraído do Blog do Juca Kfouri:
http://blogdojuca.blog.uol.com.br/

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