domingo, 27 de julho de 2008

Série Olímpica - O chinês


Compreender a língua é a chave para compreender o seu povo. E, nesse ano olímpico, nada melhor que mergulhar no chinês.

A língua chinesa pertence à família das línguas sino-tibetanas e possui um número enorme de dialetos, tão diferentes entre si que muitas vezes os falantes de um não compreendem os de outro. A “versão” predominante é o chinês-mandarim, falado por 70% da população da China, que, convenhamos, é um número nada desprezível de pessoas.

Todos nós conhecemos os caracteres da escrita chinesa. Desenhados por mestres com pincel e tinta nanquim, têm para nós um efeito de ornamento, ao mesmo tempo atraentes e misteriosos. Tentar aprender é uma verdadeira loucura, principalmente quando se descobre que existem 20.000 desses caracteres na forma escrita atual.

Mas se nós conseguimos compor qualquer palavra ou som com apenas 26 letras, 10 números e mais alguns sinaizinhos, porque eles precisam de tantos? Porque os caracteres têm origem fortemente pictográfica. Veja na tabelinha abaixo a origem de algumas palavras. Repare que na primeira coluna até dá para reconhecer o significado original. Meio forçado e de ladinho, mas dá.




Porém, os pictogramas só podem representar conceitos concretos, e não abstratos, datas, quantidades, denominações etc. Uma possibilidade é a combinação de símbolos: árvore + árvore = floresta; mão sobre a lua = eclipse lunar; e por aí vai. A grande maioria dos caracteres atuais (cerca de 90%) são uniões ou fusões de dois signos. O primeiro indica o conteúdo conceitual e o segundo uma indicação da pronúncia da palavra, bem lógico, né?

Considerando-se ainda que um caractere chinês nem sempre corresponde a uma única palavra ou uma sílaba, me pergunto: como será um dicionário chinês?

A conclusão é que ler chinês é praticamente impossível. E falar?

As palavras em chinês são monossilábicas e, se eles têm milhares de caracteres para escrever, para falar só existem 411 sílabas. E como é possível falar utilizando-se apenas dessa diminuta quantidade de sílabas? Fácil, mudando-se o tom com que cada uma é falada!

Estranho? Nem tanto. Mesmo em português temos algo parecido. A palavra “sim” com elevação de voz pode ser a resposta a um chamado: “Garçom!”. Se falada com um abaixamento de voz, pode estar respondendo a um “Você vai?”

Porém, em ambos os casos, “sim” é “sim”. Em chinês, essa diferença de tons é distintiva de significado.

O dialeto pequinês (o de Pequim, não o do cachorro, que tem uma posição muito importante na gastronomia chinesa) conhece quatro tons, que podem ser assim representados graficamente:



No primeiro caso, a sílaba é pronunciada por inteiro com a mesma tonalidade de voz. A sílaba “ma” pronunciada assim, significa “mãe”.

A segunda entonação eleva a voz a partir de um tom mais baixo inicial. Nesse caso, “ma” significa “cânhamo”.

Na terceira forma, há um abaixamento e uma elevação da voz, dando à sílaba “ma” o significado de “cavalo”.

Por fim, na quarta pronúncia, a voz começa em tom alto e baixa no final da palavra. E “ma” vira “repreender”.

E, ainda, como sílaba não acentuada, “ma” também pode servir de partícula interrogativa.

Como será que eles perguntam: “A mãe repreendeu o cavalo por causa do cânhamo?”

Deve ser algo como “Ma ma ma ma ma”...

Então, viu como é fácil entender o povo chinês?


Extraído e adaptado do livro “A aventura das línguas”, de Hans Joachim Störig, Ed. Melhoramentos, 2003

2 comentários:

Waldomiro Lessa disse...

Os chineses nao conhecem a maxima "para que complicar se pode simplificar"
Dicionario eles nao devem ter mesmo..

Marília disse...

Facílimo! Baba! Bico!

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