segunda-feira, 9 de junho de 2008

Digressões sobre a auto-ajuda


Livro de auto-ajuda parece um fenômeno recente, mas não é. Quem nunca ouviu falar naquele “Como fazer amigos e influenciar pessoas”? Existe desde que eu me conheço por gente, e olha que isso faz tempo! Deve ser o segundo livro mais antigo de auto-ajuda, perdendo apenas para a Bíblia e suas ramificações.

Porém, o que me impressiona é a quantidade de livros atualmente nessa categoria, fazendo com que as livrarias de uns anos para cá criassem seções específicas para eles, o mesmo ocorrendo com as páginas de crítica das revistas.

Particularmente, não gosto do gênero. Acho que maior parte desses livros serve apenas para ajudar o próprio autor. A receita básica é sempre a mesma: achar um tema atraente e desfilar um monte de obviedades em torno dele. De vez em quando dão um conselho útil.

Por exemplo: você é uma abóbora! Daí até o final do livro ele vai fazer paralelos entre você e uma abóbora, mostrando como o comportamento da abóbora ajudou-a durante o período de evolução da espécie e, de quebra, ainda te ensina como se tornar a maior abóbora do pomar.

Bom, para não dizer que eu não gostei de absolutamente nenhum livro desse tipo, o único que eu li com algum interesse e proveito foi “Os 7 hábitos das pessoas altamente eficazes”, de Stephen R. Covey, há muitos anos. Não tanto pelas regrinhas do que ele chama de eficácia, mas por alguns conceitos interessantes que passaram a fazer parte do meu repertório.

Lembro-me de duas historinhas que o autor conta:

1) Um pai entra no metrô com seus dois filhos pequenos e senta-se quieto num canto. Os filhos começam a fazer a maior bagunça, incomodando os demais passageiros que olham feio e resmungam, sem que o pai tome qualquer providência. Passado um tempo, alguém resolve reclamar das crianças com o pai, pois não está conseguindo ler em paz. O pai vira-se e diz: “Me desculpe, o senhor tem razão, é que acabamos de deixar o hospital onde a mãe deles faleceu agora há pouco e nem eu nem eles estamos conseguindo lidar bem com isso”. Imediatamente os passageiros mudaram completamente de atitude e passaram a oferecer ajuda ao pai e a brincar com as crianças para distraí-las.

2) Um navio de guerra navega à noite quando no horizonte uma luz sugere uma embarcação em rota de colisão. O almirante pede para mandar uma mensagem de rádio pedindo para o outro navio desviar sua rota. A resposta foi que o almirante é que deveria desviar-se da sua. Ofendido, o oficial pega ele mesmo o rádio e transmite ordens furibundas:
- Aqui é o Almirante Joseph Smith, da marinha americana, e exijo que você mude sua rota sob pena de corte marcial!
- Aqui é o marinheiro e 3ª classe John Brown, operador de farol, sugiro que o SENHOR mude sua rota!”

São histórias bestas, concordo, mas exemplificam a idéia do autor.

Quantas vezes discutimos com uma pessoa, crentes que estamos certos, só para perceber depois de muito desgaste que talvez o outro possa ter lá suas razões?

E nem precisa ser uma discussão. O mesmo ocorre quando julgamos outras pessoas (como se tivéssemos esse direito), quase sempre baseado em uma impressão inicial superficial, que só a muito custo poderá ser mudada, se é que será dada essa chance.

Isso porque a “verdade” pode ter muitas faces. A lente com que enxergamos o mundo é diferente da lente com que nosso próximo o enxerga. E é sempre útil tentar enxergar pela lente do outro.

Essas lentes são os famosos paradigmas, palavra freqüentemente mal e indevidamente empregada. Muitas vezes já ouvi alguém dizer “você precisa mudar seus paradigmas”, quando na verdade esse alguém apenas quer que você pense igual a ele.

Em resumo, esse livro mudou alguns de meus paradigmas.

Hoje, quando discuto com alguém, procuro entender por que ele tem um ponto de vista tão diferente do meu. Se para mim meu argumento é tão lógico, o que faz com que ele enxergue as coisas de forma diferente da minha?

Pode ser que ele tenha razão.


Mas também pode ser que seja só um grandessíssimo idiota.

Um comentário:

Duda Lessa disse...

Gosto da sua maneira de colocar as coisas, e de olhar para fora de si...
bjs.

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