domingo, 27 de abril de 2008

A Luta do Século


O Boxe é um esporte fascinante. A gente passa metade da luta se perguntando por que dois seres humanos se prestam a entrar num ringue para trocar sopapos e a outra metade torcendo para um deles levar um nocaute.

Tal como os gladiadores da Roma antiga, os boxeadores também se mutilam, quando não se matam, para divertir o público. Tal como os gladiadores, os boxeadores se utilizam do esporte para subir um degrauzinho na pirâmide social.

A década de 70 foi particularmente pródiga em duelos entre os pesos-pesados, principalmente Sonny Liston, Floyd Patterson, Joe Frazier, George Foreman e, claro, o maior de todos, Muhammad Ali. Todas as disputas de títulos eram anunciadas como a Luta do Século. Em uma única década deve ter havido umas dez “lutas do século”.

Mas a que verdadeiramente mereceu esse título, foi a luta entre George Foreman e Muhammad Ali, em 1974, no Zaire. Havia muito mais em jogo do que o título mundial e os milhões de dólares que sempre correm nesses eventos.

De um lado, George Foreman, campeão olímpico, detentor do título, sete anos mais novo, negro, representava o establishment branco, simbolizado pelo uso de calções com as cores da bandeira americana. Quem acompanhou seus treinamentos chegou a temer pela vida de seu adversário.

No outro corner, Muhammad Ali, nascido Cassius Clay, campeão olímpico, recusou-se a alistar-se no exército americano para lutar na Guerra do Vietnã ("No vietcong has called me nigger"). Virou um pária. Perdeu sua medalha e seus títulos. Converteu-se ao islamismo e mudou de nome. Os calções predominantemente brancos ressaltavam sua pele negra.

A luta foi fantástica em emoção. Ali boxeou como um dançarino; ficava encostado em seu canto e esquivava-se das porradas de Foreman. As que o acertavam, pareciam que nenhum efeito causavam. Ali baixava a guarda e brincava com Foreman. Este, de tanto tentar, acabou se cansando. Até que, no oitavo assalto, aconteceu o que pouca gente esperava. Foreman sofreu uma seqüência de golpes, caiu e não se levantou mais.



Para quem quiser saber mais, recomendo assistir ao filme “Quando éramos reis” e a leitura do livro “A luta”, de Norman Mailer. Imperdíveis.


Foreman lutou ainda por muitos e muitos anos, tendo sido campeão em 1976 e 1994. Atualmente, vende grills.

Muhammad Ali virou lenda, hoje sofre de Mal de Parkinson.

----------------------------------------------------------------------------------------------

Naquele tempo já se usava chamar ex-atletas ou gente do meio para comentar esportes. O grande comentarista de box da época era Khaled Cury. Chamava atenção por suas pérolas, como essas anotadas por minha mãe em um livro de receitas durante a “luta do século” de 1975, entre Ali e Frazier, nas Filipinas:

"Recebeu golpes ao corpo"
"Ali goza do conceito do presidente"
"Frazier tem mais facilidade de sangue"
"Se alguém pode prever alguma coisa, ninguém pode prever nada"
"Nu Iorque"
"Manáger"
"Marramédi"
"A passividade de Ali começa a se mostrar, mas já agora ele começa a se girar"
"Ronde decisivo não para Frazier, senão para Cassius Clay"
E a me
lhor de todas: "Há uma torrente de dólares tão grande em Manila neste momento, que Mac Arthur gostaria de estar lá de novo, naturalmente se estivesse vivo"!

Complemento a informação a pedido da minha mãe: essa luta também foi vencida por Ali, por desistência de Frazier no 14ª assalto. Após a luta, Ali disse modestamente: "Frazier é o melhor lutador do mundo. Depois de mim".

3 comentários:

Marília disse...

Obrigada!

Rafhael Vaz disse...

Muito bom, muito bom! Queira ter podido acompanhar essas lutas ao vivo.

Abraço!

Edison Junior disse...

Que bom que você gostou! Valia a pena ficar acordado para assistir. Se você achar o DVD, assista ao filme: “Quando Éramos Reis”, certamente você vai gostar.

Related Posts with Thumbnails