terça-feira, 15 de abril de 2008

Anne Frank


A história de Anne Frank é tocante. Acabo de ler pela terceira vez seu famoso Diário. Em seguida li sua biografia, escrita por Melissa Müller. Confesso que achei que ia ser meio repetitiva, mas como veio bem indicada pela minha mãe, li. E gostei muito.

A narrativa de Anne do pesadelo que viveu e seu término brusco (“O DIÁRIO DE ANNE FRANK TERMINA AQUI”) são chocantes o suficiente para nos deixar sem fôlego para fazer quaisquer perguntas além de “como isso foi possível?”

A biografia, no entanto, vai um pouco mais além e narra com detalhes a invasão da polícia no esconderijo para efetuar a prisão. Fala como, ao contrário do que muita gente pensa, quase todos os empregados que trabalhavam no prédio e também alguns vizinhos aos poucos foram descobrindo que havia gente escondida lá. Menciona a investigação infrutífera, anos depois, para tentar descobrir quem os havia traído. Segue também cada membro da família após a prisão e conta como morreu cada um deles, com exceção do pai. E faltava tão pouco para os aliados chegarem...

Sempre me impressionaram as histórias sobre a segunda guerra e o holocausto. Acho que nunca a humanidade chegou tão perto de seu ponto máximo de barbárie. Graças ao meu avô, tive acesso a uma ampla biblioteca sobre a guerra. Filmes como O Pianista, A Lista de Schindler e outros do gênero sempre me tocam profundamente, mesmo sabendo o final da história. É tudo tão inconcebível, que mesmo hoje é difícil imaginar o sofrimento por que passou tanta gente, e não me refiro somente aos judeus.

Acho que não se pode culpar todo um povo pelo que ocorreu. Primeiro, porque generalizar seria o mesmo preconceito só que com sinal trocado. Depois, porque o mesmo sentimento se espalhou por quase todos os países conquistados, pela manipulação e propaganda, pela exploração de sentimentos arraigados há muitos séculos e por oportunismo puro e simples. E, por último, porque muitas pessoas de outros países, mesmo entre os aliados, não sujeitos, portanto, à influência da propaganda, também acreditavam naquilo ou simplesmente fecharam os olhos.

E, como se isso não bastasse, após a guerra muitos judeus entraram com ações contra o governo para reaver seus bens confiscados pelos nazistas. Num preciosismo burocrático e cínico, o novo governo exigiu que eles declarassem e descontassem das indenizações solicitadas, eventuais débitos anteriores para com o imposto de renda.

A natureza do homem foi testada no seu limite mais baixo, não creio realmente que algo assim tenha lugar novamente, pelo menos em proporções tão grandes. Devemos cuidar para que não aconteça nem em proporções pequenas, começando por nós mesmos e ao nosso redor.

O livro fala também sobre os muitos judeus e outros perseguidos que ficaram escondidos e conseguiram assim atravessar o período da guerra. O porquê de Anne Frank ser a mais conhecida é simples para quem leu sua comovente e sensível narrativa e acompanhou o amadurecimento daquela adolescente em condições extremas. Alguém que, escondida no sótão de um escritório por dois anos, ainda consegue nos brindar com um conselho simples e verdadeiro:

“E para todos aqueles que têm medo, que estão solitários ou infelizes, com certeza o melhor remédio é ir lá fora, em qualquer lugar onde estejam inteiramente sozinhos, sozinhos, com o céu, a natureza e Deus”.

Shallom Anne Frank!



P.S.1 Sou em parte descendente de alemães e passei recentemente por uma conversão simbólica e dolorida ao judaísmo.


P.S.2 E também não acho muito bonito o que acontece na Palestina.



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