sábado, 12 de abril de 2008

Ah, as estatísticas...


Um cara come um frango e o outro nenhum. Em média cada um comeu meio frango, ótimo, porém o segundo ficou com fome e o primeiro provavelmente com dor de barriga. Essa velha piada, como de resto quase todas as piadas, traz uma verdade embutida: estatísticas são perigosas se utilizadas incorretamente ou, pior ainda, dolosamente, principalmente em época de eleição.

Estudos divulgados pela imprensa não especializada (e especializada também) afirmam categóricas verdades que são desmentidas tempos depois. Lembra quando o ovo fazia mal à saúde? A novidade é que parece que agora não precisamos mais beber 2 litros de água por dia, ou seja, de uma hora para outra, carregar garrafinhas a tiracolo passará de hábito saudável a frescura.

Muitas vezes, fatos comprovados estatisticamente não têm nexo causal, ou seja, embora estejam relacionados entre si, não quer dizer que um seja a causa do outro. Nem sempre é tão óbvio assim, mas um cientista descuidado de outro planeta, observando nossa cidade num dia de chuva poderia chegar à conclusão que a chuva foi causada pelo excesso de carros nas ruas.

O livro Freakonomics, escrito por Steven Levitt e Stephen Dubner, é um bom exemplo disso. Em cada capítulo ele aborda o outro lado dos dados estatísticos de alguma questão atual, chegando a conclusões, muitas vezes politicamente incorretas, mas sempre bem diferentes das que estamos habituados a ler e ouvir. É bom para ensinar a pensar.

Num dos capítulos mais polêmicos, ele aborda a drástica redução da criminalidade na cidade de Nova Iorque. Ele desfila por todos os argumentos utilizados para explicar a redução, tais como: momento econômico bom, diminuição do tráfico e consumo de crack, novas estratégias policiais (tolerância zero), controle mais rígido do porte de armas, aumento da idade média da população, incremento do número de policiais nas ruas e o crescente número de jovens presos.

Sem desmerecer a importância de cada item acima, ele contra-argumenta com estatísticas de outros locais, provando que esses fatos por si só não teriam sido suficientes para a redução da criminalidade. A conclusão que ele nos oferece é que a principal causa da redução teria sido a legalização do aborto aproximadamente 20 anos antes dos índices de criminalidade começar a baixar. A razão seria que menos crianças rejeitadas por seus pais estariam à solta pelas ruas cometendo crimes. Em tempo, ele diz que não é pró-aborto, apenas explica como ele acha que o mundo funciona.

O argumento é tentador, porém, usando a mesma linha dele já tem gente perguntando se isso não deveria ter começado a ocorrer 20 anos depois que a pílula apareceu, na década de 60. Ou as crianças não-nascidas por causa da pílula são diferentes das crianças não-nascidas por causa do aborto?

Várias hipóteses para tentar responder essa pergunta serão levantadas, porém, como diz o nome, são hipóteses, à procura de um cientista que as confirme.

Tomemos cuidado com os resultados.

Um comentário:

Marília disse...

Entendi.
Estatíticas devem ser muito bem mastigadas para saber se vale a pena engolir...

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