sábado, 1 de março de 2008

O barato da corrida


And the body flashes all alone. Alive! (1)

A corrida é para mim uma coisa muito importante em minha vida. Fora umas incipientes tentativas anteriores, comecei a correr de verdade logo depois que deixei de fumar, em 4 de janeiro de 1980, há 10.284 dias, portanto. A corrida me ajudava a esquecer o cigarro e tornava mais suportável sua ausência.

Passei a correr cada vez mais, quebrando meus próprios recordes de distância e tempo. Estava muito longe de marcas atléticas profissionais, mas que importava? Competia comigo mesmo. Controlava tudo numa planilha (sem o uso do Excel, acreditem, isso é possível!), marcando a distância percorrida, tempo, local e condições climáticas.

A primeira corrida de rua de que eu participei foi uma meia-maratona (21 km). Depois comecei a participar de São Silvestres (15 km), peguei até as últimas que foram disputadas à noite, e outras corridinhas por aí. Competi em 3 Maratonas, duas em São Paulo e uma no Rio, em 1983, mas só completei essa última. Nas duas de São Paulo fui derrotado pela barreira dos 30 km e pelas subidas e descidas de Piratininga.

Experimentei por diversas vezes o chamado “barato da corrida”. Uma sensação de bem estar que se sente durante a corrida. Na verdade, é inexplicável. Não é uma sensação de anestesia geral, como se pode pensar. Continua-se a sentir o cansaço, mas é como se sentisse prazer nesse cansaço. Não sei o que faz com que se inicie o barato, vem do nada, muitas vezes em um dia em que você nem estava com muita vontade de correr. E geralmente não dura muito. Mas é bom.

Um amigo, muito sarcástico, me dizia que, para cada hora que a gente gasta correndo, ganha-se uma hora a mais de vida: “mas, para quê?”, perguntava ele, “se a gente vai gastar essa hora correndo?”. Eu não ligava, era uma hora divina.

Me lembro em especial de uma corrida que fiz no Central Park, em 1983. Estava viajando a serviço e fizemos uma parada em Nova Iorque. Chegamos no sábado cedo, andamos pela cidade a manhã inteira e chegamos ao hotel super-cansados. Meu companheiro de viagem falou que ia dormir um pouco, pois à noite tínhamos um compromisso. Nosso quarto no hotel tinha vista, meio de quina, para o Central Park, meca dos corredores. Irresistível. Coloquei meu calção, o tênis e lá fui. Corri por 8 km, ou 5 milhas, já que estamos em NY, e nem senti meus pés cansados da caminhada matinal. And the body flashes all alone. Alive. Um barato.

O amadorismo com que me dediquei ao esporte hoje me cobra seu preço. Uma adolescência semi-sedentária, algumas contusões aqui e ali, algumas dores crônicas ali e aqui, principalmente aqui, e algumas artroses em lugares diversos fizeram com que eu fosse diminuindo o ritmo de treinamento. Além disso, ou talvez por isso, comecei a perceber que não extraía da corrida o mesmo prazer e os mesmos desafios do começo.

E assim fui diminuindo o treinamento. De vez em quando ainda participo de corridas curtas, de 5 a 6 km, mas uma recente pancada no joelho jogando vôlei me podou ainda mais. Bom, dois médicos e um fisioterapeuta já me falaram que corrida não faz bem, mas sei que nem todos os médicos concordam com esse ponto de vista. Vou trocar de médico até achar um que diga o que eu quero ouvir.

And the body hurts all around. Ai, ai...
(2)


(1) extraído de uma poesia que fala sobre o barato da corrida; favor não me perguntar nem o título nem o autor.


(2) paródia melancólica, porém cheia de sentimento, da poesia acima; o autor é este blogueiro mesmo.

Um comentário:

Marília disse...

Eu não podia entender porque você
madrugava para correr ainda no escuro. Comecei a entender.Sempre é tempo. Vai me explicando.

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