quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Filme sem fim...


Era preciso dar uma lição naquela velha xereta. Pelo menos foi a essa conclusão que chegou o casal que morava na casa em frente. Viviam os dois intensamente a vida de recém-casados, cada qual com seu trabalho, sem horário para sair ou chegar e sem se preocupar com a vida dos outros. Isso até que começaram a reparar que a distinta senhora, que tão amavelmente os recebeu no dia em que eles se mudaram para lá, e que sempre se prontificava a tomar conta da casa quando eles viajavam, na verdade usava isso como pretexto para imiscuir-se na vida deles. Talvez fosse apenas a forma dela voltar ao tempo em que também era jovem e recém-casada, pelo menos assim pensaram no início, porém sua contínua intromissão começou a incomodá-los. Surpreenderam-na várias vezes espionando pela janela e até fuçando na caixa do correio. Não podiam ter uma discussão e lá estava ela espiando por trás da cortina.

Era preciso dar uma lição naquela velha xereta. Iriam simular uma briga e, quando tivessem certeza de que ela estaria à espreita, ele fingiria bater na esposa com algum objeto, levaria seu corpo até o carro, colocaria no porta-malas e sairia dirigindo, dando uma volta suficientemente grande para que a senhora tivesse tempo de chamar a polícia. Voltariam para casa a tempo de ver a cara dela se explicando para os policiais.

Armaram o cenário. Começaram a discutir próximos à janela, de forma a serem vistos por ela. Quando tiveram certeza de que ela estaria olhando, ele pegou um bastão de baseball (sim, porque o filme era americano) e fingiu dar-lhe na cabeça.

Do outro lado da rua a preocupada senhora viu o rapaz arrastar o corpo da jovem esposa até a garagem, colocá-la no porta-malas, entrar o carro, dar a partida e sair voando da casa. Correu para o telefone, entre nervosa e excitada, e discou para a polícia.

Mal virou a esquina, o marido, desatou a rir imaginando a cara da velha dali a cinco minutos quando retornassem à casa. Ele iria até a praça dali a dois quarteirões e a esposa desceria do carro. Claro, não podiam fazer isso naquela rua movimentada, pois chamaria muito a atenção. Ah, só eles mesmo! Que dupla faziam! Tinham, é óbvio suas rusgas, mas quem não as tem? Eles sempre foram cúmplices, assim como estavam sendo naquele momento.

O sinal fecha. O carro da frente freia bruscamente. Ele também. O carro de trás não. A batida é inevitável. O rapaz desce atordoado do carro e vê seu porta-mala todo amassado. Só pensa em sair dali. Entra no carro e sai em disparada. Estaciona em um local isolado e abre a tampa. Vê sua esposa morta com um ferimento na cabeça.

Que vai fazer agora? Como vai explicar isso à polícia? Deveria esconder o corpo? E o testemunho da velha? Deveria matá-la também?


- Junior! Tá na hora de dormir!

Jamais soube o que aconteceu depois. Já estava tarde e minha mãe me mandou ir dormir. Naquela época eu era pequeno e tinha que dormir quando ela estava com sono. Jamais soube que filme era esse e nunca mais consegui assisti-lo de novo. Só me lembro que era em preto e branco, talvez um episódio da série Além da Imaginação. Alguém sabe? Me ajudem!

Nenhum comentário:

Related Posts with Thumbnails